Fitoterápicos e suplementos alimentares promovidos em redes sociais podem ser tóxicos e estão por trás de internamentos, transplantes de fígado e óbitos

Por Júlia Lins

Ervas e suplementos alimentares podem ser amplamente encontrados em lojas de produtos naturais físicas e na internet.

Em 18 de maio de 2024, Marcela e uma amiga faziam uma trilha, em Cachoeira, município a 120 km de Salvador. O passeio começou às 11 horas, com mal estar, tontura e vômito, e terminou às 16 horas, após Marcela desmaiar e ser encaminhada a um hospital local, onde só acordou no dia seguinte, sem muitas lembranças do que havia ocorrido no dia anterior. Como não havia muitos recursos para atender o caso, ela foi transferida para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Brotas, na capital baiana, e, em seguida, regulada, com alterações nas enzimas do fígado, para o Ambulatório de Hepatologia do Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos (Hupes-UFBA), também conhecido como Hospital das Clínicas.

Marcela conta que, durante as investigações no ambulatório, o médico foi informado, por sua irmã e única pessoa que sabia, que ela usava um fitoterápico para emagrecer. O medicamento foi suspenso, mas ela teve que permanecer 10 dias internada e quase precisou de transplante de fígado. Depois da alta, ela ainda ficou cerca de um ano fazendo acompanhamento médico e com restrições de alimentos, como chás. 

O suplemento usado por Marcela atualmente é comercializado em redes sociais, por 340 reais um frasco com 30 cápsulas, com a promessa de que o consumidor perca de 4kg a 10kg em 30 dias. De acordo com a publicidade, o produto “tem ação termogênica e estimulante, controla a ansiedade, elimina a retenção hídrica e promove maior saciedade.” Na composição, constam diversas substâncias naturais como glucomannan konjac, canela, taurina e magnésio. A prescrição é de uma cápsula por dia, mas bastaram 5 para que o fígado de Marcela quase entrasse em falência.

“Quando tomava as cápsulas me sentia tão mal, mas achava que era efeito colateral. Eu já tinha usado o mesmo produto uns 2 anos antes e não tive nada. Só que o médico explicou que o que não me fez mal no passado pode fazer agora, ou mudaram a composição. O produto foi para análise, e no laudo pericial deu que, além de não ter o que eles informam, tinham outras substâncias, como sibutramina (para obesidade), bisacodil (laxante) e um remédio para ansiedade”, conta a dona de casa, que hoje tem 41 anos e um filho de 4 meses. Ela fez uma denúncia do produto à Anvisa e entrou com um processo indenizatório, por isso prefere não se identificar.

“Me senti muito enganada, porque eles fazem questão de enfatizar que o produto é 100% natural e que não vai ser prejudicial. Algumas das substâncias encontradas na composição só são vendidas com prescrição médica. É um produto de fácil acesso e muito perigoso”, afirma.

Thaise Macedo, de 37 anos, de Itapetinga, cidade a 562 km de Salvador, também está fazendo acompanhamento no ambulatório do Hospital das Clínicas. Entre dezembro de 2024 e janeiro deste ano, ela usou um fitoterápico para retenção de líquido, que tem na composição café verde, laranja moro, morango, spirulina, psyllium e cromo, vendido na internet por 179 reais, um frasco com 30 cápsulas, das quais ela usou 20. Durante os exames que ela faz duas ou três vezes no mês para acompanhamento da tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune, foram encontradas alterações nas enzimas do fígado. 

“Eu mesma, como farmacêutica, fui administrar o fitoterápico como um termogênico, que, pelos componentes da bula, não tinha hepatotoxicidade. Para minha surpresa, quando fiz os exames, houve alteração nas enzimas hepáticas, então suspendi de imediato pelo risco de uma hepatite medicamentosa.” Ela acredita que a composição do produto pode estar contaminada com outras substâncias. “Se os medicamentos das indústrias podem ter uma contaminação cruzada, imagine o fitoterápico que pode ser produzido em qualquer laboratório”, diz. 

Além disso, ela também tomava shots de gengibre, curcumina, limão e mel para imunidade, e glutamina para a saúde do intestino. Em junho ela suspendeu a curcumina por outras alterações nos exames. “Ainda tem uma discreta elevação nos níveis, porque meu organismo ainda está sintetizando a substância. Acredito que muitas pessoas estão tendo essa hepatotoxicidade, mas não estão investigando.” 

A hepatite tóxica pode ser induzida por drogas e medicamentos, mas também pelo consumo de suplementos alimentares e ervas, cada vez mais utilizados no mundo todo, adquiridos na internet e em lojas de produtos naturais, em forma de cápsulas, pó, in natura, bebidas e até de balas de jujuba, recomendadas para diversos fins, como melhoria da imunidade e aumento de energia.

Uma das causas apontadas para o aumento do consumo desses suplementos é a combinação entre a busca por saúde e performance esportiva, com a ideia de que produtos naturais são ecologicamente corretos e não prejudiciais, e pessoas que encontram nas redes sociais a oportunidade de vender produtos e serviços para esse público, com custos muitas vezes altos, porém sem evidências científicas de que são eficazes ou seguros. 

Um estudo da Universidade de Zhejiang, na China, publicado no International Journal of Molecular Sciences em 2018, encontrou uma associação entre o aumento nas vendas de suplementos alimentares à base de ervas e o crescimento de publicações com relatos de casos de hepatite tóxica, nos Estados Unidos. O número de publicações relacionadas a hepatotoxicidade por ervas dobrou entre 2006 e 2016. 

Temperos e ervas com finalidade alimentícia são saudáveis, mas quando concentrados em cápsulas e utilizados de forma inadequada podem causar danos severos ao fígado, um dos órgãos responsáveis pela eliminação de toxinas no sangue. O chá verde, por exemplo, tomado há séculos, passou a levar pessoas a óbito nos últimos anos, sobretudo mulheres com mais de três meses de uso, depois que a erva foi colocada em formulações que multiplicam o efeito do princípio ativo, chamado catequina. A maca peruana, conhecida como anabolizante natural, tem levado pessoas a realizar transplante de fígado.

O hepatologista Raymundo Paraná diz que, na maioria das vezes, suplementos não beneficiam pessoas e não evitam doenças, ao contrário, podem até adoecê-las. Indivíduos saudáveis, que se alimentam com frutas, legumes e verduras e que ingerem entre 1g e 1,5g de proteína por quilo de peso, normalmente não precisam de suplementação, de acordo com o médico que também é professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenador da Unidade do Fígado do Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (CEDAP/SESAB) e da Rede Latino-Americana de Lesão Hepática Induzida por Medicamentos (LATINDILI). 

“Existem suplementações que são pertinentes quando falta alguma substância, como a vitamina D, porque a gente se expõe pouco ao sol. Mas a deficiência de vitamina B12, de vitamina A e de outras vitaminas é raríssima, porque é necessário ter uma doença de base que gere uma má absorção específica, ou uma desnutrição grave”, conta. 

Para o especialista, faltam estudos clínicos e sobram relatos de casos e opiniões pessoais que não têm força como evidência científica, mas que são apresentados como justificativa para prescrições. “Existem 53 milhões de brasileiros tomando ômega 3, mas não há estudos que demonstrem os benefícios que dizem que ele tem. A medicina deve se basear em evidências científicas para a tomada de decisão sobre cuidados a pacientes individuais e coletivos. Sem isso é achismo”, defende. 

“Quem viveu no Brasil antes do SUS sabe a dificuldade que era o acesso ao sistema de saúde, então as pessoas se valiam de rezas, ervas e dos chás, mas não há evidências científicas de que eles curem doenças. Boa parte das enfermidades agudas infecciosas é curada espontaneamente ou entra em uma fase de acalmia, embora cronifique.”

Ele relata casos extremos, como de um paciente que fazia lavagem intestinal de café e camomila em Goiânia. “Já soube de caso de internamento por injeção de cúrcuma. Tempero injetado no músculo. Não dá para entender. Quando eu penso que eu já vi de tudo, aparece uma coisa pior. A escada não tem último degrau”, avalia.

O médico conta que recebe pacientes com intoxicação por suplementos e ervas para internamento toda semana, tanto no Hospital das Clínicas quanto no consultório, a maioria de mulheres acima dos 40 anos. “Esse problema é experimentado no mundo todo e é um grande problema de saúde pública em toda América Latina, mas não tenho dúvida que no Brasil é o pior”, diz. 

Venda de ilusões nas redes sociais

Paraná acredita que, no país, esse problema se deve, principalmente, à desinformação e propaganda enganosa nas redes sociais. “Garotos propaganda, que conhecem essa linguagem e muitas vezes se passam por profissionais de saúde, são inebriantes e convincentes, mas nada mais são do que indivíduos que querem vender. É o que eu costumo chamar de ‘fake medicina das redes sociais’ ou ‘med business’, que não é uma medicina, é um grande negócio.” 

O médico diz que o bombardeio de informações superficiais sobre saúde nessas redes gera o que ele chama de “narcose intelectual” dos usuários. “Depois disso, vem o lançamento de falsos conceitos, que trazem em si a intenção da venda. Sempre tem algo a ser oferecido direta ou indiretamente, o que chamamos de monetização”, afirma. “Esses problemas têm onerado fontes pagadoras, como o SUS, e tudo que onera futilmente o SUS tira acesso de quem precisa. Estamos pagando para que essas pessoas enriqueçam ilicitamente”, avalia. Para o professor, falta regulamentação das redes sociais. 

Outras questões também são apontadas pelo hepatologista. “Em outros países, profissionais respondem aos seus conselhos muito mais frequentemente do que no Brasil. Nos Estados Unidos, quando o indivíduo adoece porque tomou um suplemento ou erva, o plano de saúde pode se negar a cobrir e ele vai ter que acionar o prescritor ou vendedor, então o mercado se regula.”

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diz que suplementos alimentares não são medicamentos e, por isso, não servem para tratar, prevenir ou curar doenças. Segundo o órgão regulador, os suplementos tem finalidade de fornecer nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos em complemento à alimentação. Como não são considerados medicamentos, eles não precisam de estudos para serem comercializados. 

Desde de setembro de 2024, por meio da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 843/2024 e a Instrução Normativa (IN) 281/2024, todos os suplementos alimentares no país passaram a ter que ser regularizados, mediante o procedimento de notificação. A Agência não revelou quantos suplementos são registrados atualmente.

A Anvisa recomenda que o consumidor desconfie de anúncios que relacionam um suplemento alimentar a promessas de cura ou efeitos terapêuticos. “Não é admitida a veiculação de alegações de cura, tratamento e prevenção de doenças e outros agravos à saúde, devendo constar na rotulagem o alerta de que o produto não é um medicamento. Procure auxílio dos conselhos profissionais ou sociedades médicas, por exemplo, para verificar as credenciais profissionais de alguém que aparece protagonizando anúncios de um produto do âmbito da saúde”, orienta.      

Se o usuário se sentiu lesado ou prejudicado por um falso tratamento prescrito por profissional registrado no conselho profissional de sua categoria, não só em consultórios, mas também nas redes sociais, ele pode fazer uma denúncia. O Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) diz que além de receber denúncias, realiza fiscalização ativa. 

“As redes sociais, como plataforma de divulgação do trabalho de médicos e de informações reconhecidas cientificamente, estão previstas na Resolução CFM nº 2.336/2023 e, por isso, a atuação da classe médica nas redes sociais também é fiscalizada”, afirma o presidente Otávio Marambaia. O Conselho de Enfermagem da Bahia realiza fiscalização em redes sociais apenas por denúncia externa ou fato que chegue ao conhecimento das entidades, assim como o Conselho Regional de Nutrição – Bahia e Sergipe que, a partir de denúncia, instaura processo de apuração.  

O hepatologista Raymundo Paraná participa de projeto para desenvolver um centro de referência em hepatite tóxica, no Brasil. Foto: Reprodução/ TV ALBA

Desafios no diagnóstico

As estatísticas em relação a óbitos por ervas e suplementos em países da América Latina praticamente não existem. Em casos de hepatite fulminante, o paciente tem que ser transplantado em 48 horas e não há tempo para investigação. “Muitas vezes o paciente não tem mais condições de informar o que ele estava usando, a família às vezes não sabe e há todo um protocolo para se fazer o nexo causal entre uma droga ou um suplemento e uma toxicidade. Para o diagnóstico, é preciso expertise e tempo, o que não ocorre, infelizmente, no dia a dia dos ambulatórios”, afirma Raymundo Paraná.

O diagnóstico de toxicidade por suplementos é difícil, pois ainda não há um marcador que a identifique. O que geralmente o médico faz é investigar o histórico clínico do paciente, quando se observa a cronologia de exposição a substâncias e o aparecimento da lesão e, em seguida, é feita a interrupção do uso dessas substâncias para avaliar se há melhora do quadro.

Outro problema é que, geralmente, são prescritos vários produtos simultaneamente, como chás, fórmulas, hormônios, soros e vitaminas, o que torna difícil diferenciar qual substância pode estar causando as lesões, além de ter interação desconhecida não só entre elas, mas com medicamentos alopáticos. “Tem ervas, como a cavalinha, que alteram o citocromo P450, enzima de metabolização de drogas, que pode gerar toxicidade no fígado por um remédio alopático, por uma interferência na metabolização”, exemplifica. 

Mais um exemplo é o uso de cúrcuma com pimenta do reino, combinação encontrada em cápsulas, que está em alta por ser conhecida como anti-inflamatória e antioxidante. Segundo o médico, o consumo excessivo da união dos ingredientes é tóxico, pois a pimenta do reino possui um alcalóide que intensifica a absorção da curcumina causando complicações graves no fígado. 

Também está sendo um desafio para os médicos lidarem com as mudanças de padrões de doenças hepáticas. A doença vascular porto-sinusoidal, por exemplo, deixou de ser uma condição rara por conta do uso de suplementos à base de ervas. De acordo com Paraná, já são mais de 150 pacientes diagnosticados na Bahia, com 14 transplantados, sendo boa parte encaminhados de outros estados.

O Ambulatório de Hepatologia do Hupes-UFBA é pioneiro nos estudos em hepatite C e referência para doenças hepáticas no Brasil. Em 2012, o Serviço de Hepatologia do Hupes, em conjunto com a Faculdade de Farmácia da UFBA, criou o primeiro laboratório para investigação de lesões hepáticas induzidas por ervas da América Latina, onde são realizadas diversas análises, inclusive dos suplementos que os pacientes ingeriram, para saber se as substâncias do conteúdo são de fato as que constam no rótulo e se não há outras não descritas.

O médico conta que em uma das análises foram encontradas 10 substâncias não identificadas na composição de uma whey protein que um paciente de Pernambuco com hepatite grave utilizava. O material foi enviado para o Instituto de Bioquímica da Universidade de São Paulo (USP), que também ainda não conseguiu identificar. “Estima-se que cerca de 20% desses produtos no mundo têm contaminações indevidas, na maioria das vezes por anabolizantes”, conta o médico. Whey protein não costuma causar hepatite.

Diante da ausência de informações confiáveis e do aumento de casos, Raymundo Paraná e a hepatologista Ana Pitella, do IDOR no Rio de Janeiro, criaram, em 2012, o projeto Hepatox Brasil, com o objetivo de estimular o diagnóstico e desenvolver um centro de referência em hepatite tóxica no Brasil. Hoje, o grupo trabalha na criação de um banco de dados nacional sobre toxicidade por alopáticos, fitoterápicos, ervas, suplementos alimentares e hormônios para disponibilizar em um site para consulta. A ideia foi inspirada no site LiverTox, do National Institutes of Health (NIH), a agência de pesquisa médica dos EUA.

Mercado de bilhões

Relatórios da Grand View Research, empresa de pesquisa de mercado e consultoria com sede na Índia e nos EUA, estimam que o tamanho do mercado global de suplemento de ervas foi de 42,33 bilhões de dólares em 2024 e deve atingir 90,24 bilhões em 2033. O segmento de açafrão foi detentor da maior participação de mercado no ano passado, com 24%, e a projeção é que o crescimento mais rápido seja da erva moringa. Na América Latina, no âmbito do Brasil e Argentina, espera-se que o mercado de suplementos nutricionais atinja 82 bilhões de dólares até 2030.

O documento atribui esse avanço ao aumento da conscientização do consumidor sobre a saúde e aos grupos demográficos mais jovens, como Millennials e Geração Z, “que pesquisam ativamente tópicos de bem-estar online e gravitam em direção a produtos holísticos à base de plantas. A ampla disponibilidade de informações sobre saúde por meio de mídias sociais, influenciadores de bem-estar e plataformas digitais capacitou os consumidores a fazer escolhas mais informadas”, diz o documento. 

Há uma tendência também de crescimento do mercado global de suplementos para a saúde do fígado com a projeção de que atinja mais de 1.322 milhão de dólares até 2030. Curiosamente, suplementos formulados com cardo-mariano, cúrcuma e dente-de-leão, produtos associados a casos de hepatite tóxica, são apontados como ingredientes que oferecem suporte natural para a função hepática. 

Nem os pets escapam. O tamanho do mercado global de suplementos de ervas para animais de estimação foi avaliado em 895 milhões de dólares em 2023. As principais inovações incluem formulações avançadas que combinam ingredientes à base de ervas com probióticos, ômega-3 e antioxidantes para benefícios de saúde, como suporte para articulações, imunidade e alívio da ansiedade.