Ícone do Rio Vermelho sobreviveu à ditadura militar e a missões de paz na Europa, sem perder o axé.
Por Júlia Lins

“Esse aí é o nosso Maloca, figura marcante aqui na Borracharia. É o nosso ícone que faz sempre a sua participação no fim da noite. Diga aí pra gente… você já foi solicitado a sair no fim da noite pelo Maloca?”, postou, no Instagram, a casa noturna Borracharia, localizada no bairro do Rio Vermelho, em 15 de maio de 2022. Na foto, aparece um homem negro, elegante, vestido com um pullover com colarinho branco, paletó azul marinho customizado, chapéu preto, colar de pérolas grandes e um sorriso imponente.
Dentre dezenas de comentários ornamentados com corações, palminhas e risadas, alguns usuários prontamente responderam: “Quem nunca foi expulso por Maloca não sabe o que é ser feliz numa balada”, “Melhor pessoa … expulsa todas as vezes em grande estilo!”, “Melhor abraço do mundo!! Ninguém nem liga de ser expulso por ele haha”, “Energia de milhões” e “O axé em forma de pessoa”.
Já os mais inspirados declararam: “Maloca é uma entidade incrível. Ele tá muito acima de qq ser humano. Entrei na borracharia pela 1a vez e reparei nele, em sua simpatia, tranquilidade e educação. Quando ele estava gentilmente pedindo que nos retirássemos, precisei dizer a ele sobre essa energia boa que ele transmite. Abraço carinhoso e acolhedor. Um gigante, em todos os melhores sentidos de qualquer existência.”
“Ahhh Figuraça!! Gente finíssima. Só na hora da solicitação pra sair que ele joga aquela voz encorpada Kkk Ninguém quer sair Rs Mas com a simpatia, carinho e imponência de mais de 2 metros de altura fico convencido a sair sem resistência Kk as 5 da manhã!!! Precisando ir de novo, matar a saudade”. Teve até declaração do próprio filho: “Agradeço imensamente a Deus, por ser filho desse grande homem, amigo, companheiro, conselheiro e, sobretudo, humano. Parabéns meu pai, o senhor é um exemplo de vida.”
A altura de 1,99m, a elegância de um lord e a vestimenta diferenciada, que irradia simpatia e esconde mistérios, chamam a atenção de quem passa por ele, que se define como um legionário, na movimentada Praça Brigadeiro Faria Rocha, no Rio Vermelho. “Legionário é um cara que sabe muita maldade, é selvagem, tipo Rambo, esses caras assim. Para mim, o mais perfeito dos legionários é o Malcom X”, diz.
Durante a entrevista na praça, onde trabalha durante as tardes, uma garotinha de mais ou menos 5 anos pediu para renovar uma foto tirada com ele e a mãe feita há algum tempo, para a qual ele posou como uma celebridade. Quando um galês, morador local que passava, contou que estava comemorando 30 anos de casado, Maloca festejou com um “big my god!”, uma expressão de sua própria autoria. “Ele tem esse tempo todo de casado, agradeço a Deus, brother. Deus é maior, é big my God”, explica sorrindo com lábios e olhos. “A brincadeira é um jeito de valorizar as pessoas”, declara.
Apesar da unanimidade do carinho na praça e nos comentários na postagem da casa noturna, ao ser perguntado se existe alguém que não gosta dele, ele diz que tem muita gente. “Não é todo mundo que sorri que gosta de você, né? Eu sou sincero. Não tenho falsidade. Quando você fala a verdade tem gente que não gosta. E eu sou muito positivo”, afirma.
Infância interrompida
Israel Batista da Conceição é natural do bairro de Dendezeiros, em Salvador, mas foi conquistado pelo Rio Vermelho, lugar onde trabalha há 55 anos e é memória viva da região, um conhecedor da história e seus personagens.
Ele nasceu em 12 de dezembro de 1958, mas possui outra certidão com nascimento em 06 de janeiro de 1953, forjada durante a ditadura militar, quando foi levado aos 8 anos, junto com seu irmão um ano mais novo, para a escola agroindustrial de menores, no antigo distrito de Capanema, zona rural do município de Maragogipe, cerca de 140 km da capital do estado.
Maloca conta que sua família vivia numa casa onde seu pai era vigilante, na avenida Araújo Pinho, no bairro do Canela, quando, na tarde de 29 de março de 1965, aniversário de Salvador, o pai pediu para os filhos comprarem cigarro. No meio do caminho até a barraca de Cosme, os dois foram levados numa Rural. “A gente estava andando na rua de mãos dadas, porque eu e meu irmão éramos muito unidos. Parou um carro do governo mandando a gente entrar, e então fomos parar na Secretaria se Segurança Pública e de lá fomos para o SEAM”, conta.
O Serviço Estadual de Assistência a Menores (SEAM) foi criado pela Lei Estadual nº 1567, de 01 de dezembro de 1961, sancionada pelo então governador do estado, Juracy Magalhães, e era vinculado à Secretaria do Interior e Justiça, com a “finalidade de orientar, organizar e executar, no Estado, todo o trabalho de assistência a menores em perigo e em erro social, nos seus aspectos médico, psicológico e pedagógico”.
A escola agroindustrial era um estabelecimento designado pelo SEAM para o ensino primário e de grau médio. Também haviam sido criadas duas casas de ingresso, uma para crianças e adolescentes do sexo masculino, no bairro de Brotas, e outra para o sexo feminino, em Ondina, e a Vila de Menores de internação permanente, em Paripe. Nesses estabelecimentos, eram internados garotos, em sua maioria negros, que praticavam delitos, mas também muitos considerados “abandonados” e “desvalidos”, levados pelo método de recolhimento nas ruas pela polícia.
Na prática, o dia a dia da instituição era característico de organizações militares, com imposição de regras, rotinas rigorosas e emprego da violência, visando a obediência e o aumento da força física dos internos, sob o discurso da educação e da regeneração pelo trabalho. A imprensa da época se referia ao SEAM como “sucursal do inferno”, devido à superlotação, às ações violentas e desumanas dos vigilantes e às fugas.
Maloca diz que, logo que chegou, foi colocado numa turma de meninos de 12 anos. “Para o regime eu já era praticamente maior, por causa do meu tamanho, então eles aumentaram minha idade em alguns anos. Com 10 anos, eu carregava sacos de batata de 60kg. Com 12, eu já carregava 120 kg”, lembra.
“O regime era prisão brava, era duro. Era como se você estivesse no exército, se preparando para ir para uma guerra, porque eles te preparavam para isso. E você tinha que trabalhar. Para mim, foi uma coisa boa, porque bota o cara para se desenvolver, ganhar dinheiro”, diz. “Eu não queria ir para um lugar que eu não sabia onde é, mas, como tudo na vida, as coisas têm um lado bom e um lado ruim. E eu me esqueço do ruim, não estou nem aí pro ruim. O bom que é o interessante”.
A interrupção radical da infância e os cinco anos na escola agroindustrial moldaram o que Maloca se tornaria dali em diante, mas nada faria com que ele perdesse a leveza na relação com a vida e com as pessoas. Ele conta que recebeu esse apelido por causa de um colega que, ao conhecer, chamou de maloca o lugar que ele viveu. Quando perguntado sobre como acha que seria se não tivesse sido levado, ele fala que não consegue imaginar. “Eu poderia ser uma outra parada, poderia ter sido criado com sorvete e ser o maior filho sacana com meu pai e minha mãe”, diz entre gargalhadas.
Em 20 de setembro de 1970, Maloca foi levado para outro estabelecimento de assistência a crianças e adolescentes, em Salvador, onde ficou por dois anos. Com 14, foi encaminhado para trabalhar no depósito da Antártica, no Rio Vermelho, onde também passou a morar, carregando e descarregando mais de mil caixas de bebidas por dia. “Quando eu cheguei em Salvador, com 12 anos, foi o dia da minha liberdade. Eu já era homem mesmo. Com 13 anos eu já tinha praticamente 1,80m e quando comecei a trabalhar na Antártica, aí foi que o bicho pegou, que eu fiquei maior ainda”, conta.
“De Maragogipe, vieram eu e mais 8, que eles foram distribuindo. Lembro que um ficou na Odebrecht e eu fui o último, deixado aqui, no Rio Vermelho, e ele disse: ‘de hoje em diante, é você que se sustenta, e se eu souber de uma queixa, eu venho lhe buscar’, aquela ameaça toda. Quando eu entrei, me apresentei ao homem e a voz dele já não me meteu medo, porque para quem veio do regime, aquela voz era doce.”
Com o emprego, Maloca pode buscar o irmão para trabalhar com ele e procurar pelos pais. Ele só conseguiu reencontrar o pai em 1978, já com outra família constituída, que não o recebeu muito bem, por conta do estigma da escola de menores. A mãe, ele nunca mais viu.
“Eu e meu irmão chegamos na casa de meu pai de surpresa, num dia de Natal. Eu estava com um bolo de dinheiro, tipo uns 10.000 reais que juntei. Eles não acreditaram que era a gente. Ele não me aceitou muito na hora, e eu entendi, mas quando eu tirei o pacote de dinheiro, ele gostou. A nova mulher de meu pai me tratou bem. Eu levava presente para ela no dia das mães”, conta.
Depois de alguns anos, Maloca, que já chamava atenção por seu porte físico e pelas técnicas de defesa adquiridas no período em que esteve na escola de menores, que até hoje pratica, começou a conciliar seu trabalho na Antártica com o serviço de segurança de casas noturnas famosas de Salvador, como Berro D’água, Padang Padang e Maria Fumaça. “Faço o treinamento de manhã, meio-dia e à noite. É minha vida, foi o regime que me deu isso. Tenho 60 anos de técnicas que eu faço todo dia, sozinho para ninguém ver, porque já pegaram e usaram para bater nos outros”, diz.

Missões internacionais
Ele conta que saiu da Antártica após 10 anos trabalhando e passou a atuar na segurança de vários políticos, como Antônio Carlos Magalhães, até ser convidado para ser voluntário em uma missão de paz do governo da França. Nesse período, aprendeu a falar francês, recebeu o codinome de James, esteve em diversos países da Europa e chegou a ir para Somália, na África.
Um dos trabalhos na França foi de retirar imigrantes que ocupavam prédios. “Eu morava dentro desses prédios para tirar o pessoal de lá. Não era fácil, porque tem maldade, gente escondida, refugiados, traumatizados de guerra. A França é pequena, mas tem uma quantidade enorme de gente que invade o país, porque ela colonizou Senegal, Gabão, Nigéria”, reflete.
“Na verdade, eu fui chamado para trabalhar com uma coisa e me jogaram em outra. Foi uma missão muito, muito, muito forte, mas para mim foi bom. É uma coisa que eu não gosto nem de falar, porque vem uns pensamentos negativos, ruins pra caramba.” Ele também guarda memórias das disputas geopolíticas do continente europeu, como os conflitos nos Bálcãs. “Slobodan Milošević acabou com Kosovo”, avalia.
Depois da experiência, valorizou mais o lugar onde vive e reage quando alguém diz que quer ir embora do Brasil. “Tá na Bahia, tá milk shake. Fica na sua. A praia está ali, bote uma sunga, um biquini, vá tomar sua cerveja e esqueça lá, cara. Eu fui em 90, 94, 98, 2006 e 2019, porque eu tinha uma pele para buscar lá, mas só fui porque aqui não tinha.” No quesito política, ele diz que não tem preferências, que hoje em dia não vai mais votar, mas já votou 3 vezes no presidente Lula.
Jeito de falar, jeito de ser
Maloca também conhece o poder da comunicação. “Na Borracharia e no restaurante do Beco do França, quando as pessoas chegam, você fala: ‘e aí, gente linda’. E a galera responde: ‘uhuu’. É loucura, se sentem lindos. Já para os pescadores, eu não vou falar que eles são lindos. Não tem amor e nem carinho, porque é o estilo deles. Eu digo: ‘você é um homem de bem, um guerreiro de Deus’, aí eu vou alegrar ele. Se ele estiver num dia ruim e disser ‘Para que Deus?’ Eu digo: ‘então, você é de Satanás, é de big red’, e tá tudo bem”, conta dando risada. Ele é associado à colônia de pescadores Z-1 do Rio Vermelho e faz a interlocução entre governo e pescadores.
No início da entrevista, Maloca mostrou uma foto da Praia da Mariquita bucólica, no Rio Vermelho, antes do aterramento de 1972, com um areal, cabanas de pescadores, um mar calmo com barcos e apenas uma casa construída, onde hoje é a ladeira do Morro do Conselho. Na imagem, ele conta que está ao fundo, consertando uma cabana de um pescador conhecido como Pai Tomás, que o vento derrubou. “O pescador não se une, cada um tem uma cabana. Agora, eu fiz eles se unirem. Esse era o lugar mais bonito do mundo. Não tinha hotel Meridian, não tinha nada, só beleza pura”, diz segurando a fotografia.
Discreto sobre a vida pessoal, Maloca tem um casal de filhos, de mães diferentes, e um neto, e diz que nunca casou por causa da vida que leva. Ele fala que não mora, mas vive em vários bairros, “eu vivo no Rio Vermelho, no Pelourinho, no Santo Antônio”, conta. “Você só vai me ver sozinho, eu não ando com ninguém. Primeiro, eu não tenho confiança em outra pessoa, principalmente em homem. Eu tenho muito respeito pelas mulheres. Quem cuida de mim são as mulheres, porque trato elas com muito respeito”, diz.
Embora trabalhe na balada, Maloca não bebe e diz que cuida da saúde com exercícios e alimentação. “Para que eu vou perder meu tempo com bebida? Tira a saúde, o reflexo, a visão, tira um bocado de coisa. Minha linda, se eu não cuidasse da minha saúde eu já tava longe. Eu como 200 ovos por semana. Quando você sair daqui, eu vou descer e fazer um exercício lá na praia, para eu poder ter saúde.”
Com a vista boa, também não usa óculos de grau. “Só uso óculos de moda. Para ficar bonitão”, diz, tirando os óculos escuros da bolsa e colocando no rosto estampado pelo sorriso largo.






