Por Roberta Fagundes
A Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) é um dos maiores empreendimentos de infraestrutura logística em andamento no Brasil. Originalmente, ela foi projetada para conectar o Porto Sul, em Ilhéus, no litoral sul da Bahia, à Ferrovia Norte-Sul, em Figueirópolis, no Tocantins. No entanto, o seu traçado foi redefinido para levar a ferrovia até Mara Rosa, no estado de Goiás, articulando-o diretamente com a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), o que estabelece uma conexão estratégica para a utilização desse modal em um ambiente comercialmente bem mais arrojado.
O projeto da Fiol prevê mais de 1.500 quilômetros de extensão de trilhos e a obra representa um corredor estratégico para o escoamento da produção mineral, agrícola e industrial do Centro-Oeste brasileiro e do interior baiano até o litoral atlântico, o que impacta e fortalece a inserção do Brasil no comércio internacional.
Em abril desse ano, a Bahia Mineração S.A. (Bamin) – empresa de mineração controlada pelo grupo Eurasian Resources Group (ERG), multinacional do setor de mineração e metais – suspendeu as obras no trecho 1 (Fiol 1), entre os municípios baianos de Ilhéus e Caetité, após a desmobilização do contrato com a Prumo Engenharia, que havia recebido investimentos de R$ 784 milhões. Esse trecho se encontra com cerca de 75% das obras concluídas. Diante disso, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) iniciou um processo de apuração de possível descumprimento contratual.
Os trechos Fiol 2 e Fiol 3 e Fico 1, que compõem o Corredor Ferroviário Leste-Oeste, estão em fase de planejamento para concessão, abrangendo 1.708 km e estimativa de investimento de R$ 28,5 bilhões, com operação prevista de cerca de 40 milhões de toneladas no longo prazo, conforme audiência pública realizada em janeiro de 2025.

O Brasil em posição de articulação continental
No plano internacional, no início do mês de julho, o Brasil e a China firmaram um memorando de entendimento para estudos de viabilidade do projeto de um corredor ferroviário transoceânico, que integrará a Fiol, a Fico e a Ferrovia Norte-Sul, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico, conectando o Porto Sul, na Bahia, ao recém-inaugurado porto de Chancay, no Peru.
Portanto, a obra ganha um peso ainda maior no atual cenário geopolítico de crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, no qual corredores logísticos interoceânicos se tornaram instrumentos estratégicos de poder.
O interesse de grupos chineses na ferrovia leva em conta o potencial dessa nova ligação bioceânica. Conglomerados multinacionais como a Eurasian Resources Group (ERG), com atuação no setor de mineração e metais com sede em Luxemburgo e origem no Cazaquistão, demonstram interesse direto na região. A China, um dos principais parceiros da ERG em projetos internacionais e principal destino do minério de ferro brasileiro, vê na Ferrovia uma via de acesso direto a esse produto e aos grãos brasileiros, o que reforça sua estratégia global de diversificação de fornecedores, diante da crescente tensão com o Ocidente, sobretudo com os Estados Unidos, hoje, sob o governo de Donald Trump.
Na prática, os EUA mantêm uma presença estratégica e influência geopolítica, especialmente em áreas onde há interesses comerciais, energéticos ou militares, o que inclui as rotas para o grande comércio marítimo. Nessa situação, se encontram o Estreito de Malaca (entre a Malásia e a ilha indonésia de Sumatra), o Canal de Suez (no Egito), o Estreito de Ormuz (entre o Irã e Omã) e o Canal do Panamá (na América Central), por onde trafegam os grandes navios comerciais do mundo. É por conta desse contexto que a China busca rotas alternativas e seguras para garantir o abastecimento de sua indústria. E é por causa disso, que a América do Sul ganha importância econômica e geopolítica em razão da sua vasta produção de alimentos e minérios, e, sobretudo, o acesso aos oceanos Pacífico e Atlântico por meio de territórios soberanos sob a batuta de governos legitimados e independentes. Não à toa, os EUA buscam interferir política, econômica e militarmente na região.
“A geopolítica do Corredor Fiol-Fico não se limita ao Brasil. Ela insere o país em disputas internacionais, envolvendo grandes blocos econômicos, cadeias globais de produção e a pressão de potências estrangeiras”, analisa, Edgard Porto, diretor de Logística da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), vinculada à Secretaria do Planejamento do Estado da Bahia (Seplan).
Inegavelmente, a Fiol, ao se integrar a malhas ferroviárias transcontinentais, hoje, representa uma rota de menor risco geopolítico, fora da órbita de controle norte-americano. A disputa por corredores logísticos encontra, nos trilhos da ferrovia, um palco para a disputa global em curso. Portanto, o avanço do projeto da Fiol, tendo no horizonte a materialização do Corredor Fiol-Fico dialoga com a pressão exercida pelos EUA sobre os BRICS, que se enraíza numa disputa mais ampla pelo controle de fluxos, mercados e poder.
Logística como vetor de desenvolvimento regional
Estudos conduzidos pela SEI, no âmbito do projeto Pensar Bahia, apontam que a logística deixou de ser mero suporte operacional, para tornar-se um fator decisivo de desenvolvimento regional e competitividade sistêmica. O capítulo “Logística de Transportes como Fator de Desenvolvimento Regional”, da Série Estudos e Pesquisas, mostra que ferrovias modernas são determinantes para superar o isolamento produtivo e conectar territórios ao sistema econômico global.
A expectativa com a ligação bioceânica da Ferrovia é que o Brasil deixe de ser mero exportador de commodities e passe a ser mediador logístico e político entre a produção do interior do continente e os mercados asiáticos. A lógica não é apenas de construção de ferrovias e portos, mas também de atrair investimentos industriais e de serviços, impactando no ambiente comercial.
No plano interno, segundo Edgard Porto, “ao integrar o Centro-Oeste brasileiro e o Oeste baiano, ricos em grãos e minérios, ao litoral atlântico, a Fiol rompe com a lógica histórica da dependência das rotas de escoamento que privilegiam o Sudeste e o Centro-Sul brasileiros”.

As análises estão disponíveis na publicação da SEI, acesse aqui.
De acordo com o estudo, ao menos 18 municípios baianos têm potencial para se integrar a clusters industriais de médio porte com padrão internacional, desde que conectados por infraestrutura ferroviária moderna.

Cluster logístico é uma concentração geográfica de empresas de um mesmo setor ou de setores complementares que interagem entre si, compartilhando infraestrutura, mão de obra, fornecedores e até centros de pesquisa.
Nesse cenário, o Corredor Fiol-Fico é apontado como o principal instrumento para viabilizar essa nova etapa de desenvolvimento brasileiro, não apenas como via de escoamento, mas como vetor estruturante de industrialização e agregação de valor.
Esses municípios baianos estão localizados em regiões com vocação logística e produtiva, abrangendo polos como:
• A Macrorregião de Salvador, que inclui a Região Metropolitana de Salvador (RMS), Alagoinhas, Santo Antônio de Jesus e Feira de Santana, tradicional entroncamento logístico, com grande potencial de atrair cargas e investimentos internacionais e distribuir os fluxos com os nós logísticos do interior do estado;
• A região de Juazeiro, na Bahia, centro de produção de frutas, juntamente com Petrolina, em Pernambuco;
• Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, epicentro do agronegócio no MATOPIBA fronteira agrícola formada pelas regiões limítrofes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Grande parte dessa área se encontra no bioma do Cerrado e é considerada uma das mais importantes regiões para o agronegócio, se destacando pela produção de grãos em larga escala;
• Brumado e Caetité, com presença mineral e industrial;
• Ilhéus-Itabuna, eixo logístico associado ao Porto Sul e ao desenvolvimento tecnológico.
A projeção é a transformação desses municípios em plataformas regionais de transformação produtiva, aproveitando as novas rotas ferroviárias, a articulação entre modais e a descentralização dos investimentos. O estudo destaca que, com planejamento territorial, incentivos fiscais e governança colaborativa, esses clusters podem alcançar padrão técnico internacional, com capacidade para impulsionar o emprego, a inovação e a agregação de valor em regiões historicamente menos integradas.
Não é tarefa simples. Uma obra da envergadura da Fiol apresenta desafios tão importantes e complexos quanto o seu tamanho – Corredor Fiol-Fico, Porto Sul e Complexo portuário da Bahia de Todos os Santos. O Corredor Fiol-Fico articulado com a Ferrovia Norte-Sul, forma uma ‘cruz logística’ estruturante para o transporte e escoamento de cargas no Brasil. Portanto, representa uma escolha de país. Será necessário investir em um sistema logístico inteligente que garanta o gerenciamento e o monitoramento do fluxo de cargas, e um novo modelo de coordenação entre os portos baianos. Obviamente, esse horizonte impõe a formação de profissionais especializados para a operação e manutenção da ferrovia, dos trens e dos terminais, mas também para o gerenciamento desse complexo sistema de transporte.
O trinômio logística, tecnologia e capital humano exige uma sinergia governamental, empresarial e educacional que supere as descontinuidades políticas e de investimentos, e as disputas regulatórias.
A efetivação desse projeto — e o modo como ela será operado — dirá muito sobre o Brasil que se deseja construir e sobre como se consolidará essa plataforma de escoamento e esse centro logístico de articulação continental. As respostas não estão apenas nos trilhos que cortam a Bahia, mas nos posicionamentos e nas decisões políticas que ainda precisam ser tomadas.






