No ano em que a internet comercial completou 30 anos no Brasil, Claudete Alves, considerada a mãe da internet no estado, fez 50 anos de atuação na UFBA e não tem rede social 

Por Júlia Lins

Foto: Ricardo Prado

A internet chegou no Brasil no final da década de 1980, restrita ao ambiente acadêmico e, até 1995, quando começou a ser comercializada, era utilizada por poucos professores e pesquisadores nas universidades que desejavam se comunicar com seus pares no Brasil e no exterior. Na Bahia, a tecnologia chegou em 1991 e teve uma “mãe”: Claudete Alves. A Analista de Tecnologia da Informação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que atua na Superintendência da Tecnologia da Informação (STI) da universidade, coordenou trabalhos de implementação do primeiro servidor na Bahia e de difusão da internet em universidades e empresas. 

A implantação da internet no estado fez parte de um projeto do governo federal para construir uma infraestrutura nacional de rede de internet para fins de pesquisa e ensino e disseminar seu uso no país, com presença inicial em 11 capitais. Para isso, o governo fundou, em 1989, a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), hoje Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, através do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Nesse período, a internet nos Estados Unidos já estava implantada e, em 1992, eles já tinham a presença de iniciativa privada. Na Europa, a tecnologia ainda era incipiente e seu uso começou mais ou menos no mesmo período que o Brasil. No início não existia a Web e era utilizada uma ferramenta chamada Golfher, que tinha uma interface dura, com uso apenas de texto e hipertexto, mas já era possível fazer transferência de arquivos por FTP e conversar por chat. A rede tinha velocidade de 9.6 a 64 KB por segundo, nada se comparado aos dias atuais, em que os planos comerciais podem chegar a 1 GB por segundo. 

Claudete se formou em Processamento de Dados na UFBA, em 1976, e começou trabalhando com desenvolvimento de sistemas e programação. Ela atuou também como docente e fez mestrado em Informática, na Universidade Federal da Paraíba, em 1988. “Nesse mesmo ano, foi realizado um congresso da Sociedade Brasileira de Computação, no Centro de Convenções em Salvador, onde estive com meus professores do mestrado e acompanhei minha orientadora. Lá, nesse evento, apareceu um japonesinho dizendo que ia ter uma reunião e gostaria que a gente participasse”, lembra Claudete.

O “japonesinho” era Tadao Takahashi, engenheiro da computação e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp/ SP), que liderou a fundação da RNP, falecido em 2022, e na ocasião apresentou para o grupo de especialistas o projeto da Rede. Ela considera que esse momento foi a semente da implantação da internet na Bahia. “Pense numa pessoa que trabalhava 24 horas por dia. Era muito criativo, muito ousado e autoritário, mas sabia ouvir críticas. Ele foi um catalisador, um elemento que acelerou a implantação da internet no Brasil. Claro que junto com outras pessoas próximas que contribuíram, trazendo tecnologia e disseminando o conhecimento”, relata.

A missão

Nos primeiros anos da década de 1990, Takahashi visitava os estados para apresentar a tecnologia e fazer a interlocução com governos estaduais. O projeto era nacional, mas precisava de apoio local, pois não havia recursos suficientes para bancar pessoas ou equipamentos. “O Estado tinha interesse, mas não tinha condições de abrigar o Ponto de Presença – POP da  RNP, local de conexão das redes de internet, porque não tinha ninguém nem que chegasse perto da compreensão do que era aquilo”, conta Claudete. 

Ele soube, por intermédio de colegas, que havia no Centro de Processamento de Dados (CPD) da UFBA, atual STI, o analista Aloisio Reis, que tinha acabado de voltar do mestrado em Redes de Computadores, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio de Janeiro, e poderia ter expertise para que o CPD abrigasse o POP da RNP na Bahia. “Tadao veio conversar com Aloisio para ver se ele topava abraçar o projeto, receber os equipamentos, estudar uns manuais enormes em inglês e implantar aquele negócio. E ele topou”, diz.

“Tivemos, no momento máximo, 30 linhas telefônicas, que naquela época eram muito caras e a gente tinha muita dificuldade de custear. Então fizemos parcerias com a Telebrás, Unifacs e outras instituições, para ter apoio”, afirma a analista. Além da implantação de toda infraestrutura, era necessário mostrar para a comunidade acadêmica a existência e utilidade da nova ferramenta. Convidada por Aloisio, coube à Claudete fazer essa divulgação, pois poucas pessoas tinham, até então, sequer ouvido falar na tecnologia.

Ela elaborou uma apresentação e chegou a fazer 100 palestras em um ano, em universidades, empresas, bibliotecas e instituições que começavam a ouvir falar na novidade. “O esforço era grande, porque estou falando de 1990 e 1991, e nessa época não havia redes ainda. Na apresentação da Faculdade de Medicina, por exemplo, eu tive que arranjar um jeito de puxar a linha de telefone para chegar até a sala da palestra, para instalar um modem e discar para acessar a internet, sendo que o centro ficava em outro prédio, no CPD”, lembra.

Nas apresentações ela mostrava um catálogo impresso de listas de discussões de e-mail de várias áreas do conhecimento, com acadêmicos de vários países. Mas para ser convincente de que a internet era algo importante, Claudete precisava de uma demonstração prática, que era uma consulta na biblioteca online da Universidade de São Paulo (USP) em tempo real, que funcionava como uma mágica. 

“A biblioteca da USP foi colocada na base para acesso desde o início da internet, e tinha um programa chamado Dédalus para busca. A gente fazia uma consulta bibliográfica, que demorava uns 5 minutos, era lento, e o resultado aparecia, mas eles achavam que era armação. Então eu pedia ao público que indicasse uma publicação da qual eles eram autores. Quando os resultados surgiam, eles começavam a se mexer, a conversar entre si e a dizer ‘parece que é verdade, o negócio é sério’. Depois de conseguir credibilidade, eu saía das reuniões com fichas preenchidas de abertura de e-mail, que era um dos serviços mais importantes que existiam naquele momento”, recorda.

Ela avalia que o POP da Bahia é considerado um dos melhores do Brasil. “Houve uma paixão das pessoas envolvidas que fizeram parte dessa história. Talvez uma das razões de eu estar aqui, com 50 anos na UFBA, com 72 anos de idade, cansada, tendo uma família que me exige muito, seja porque passaram por aqui essas pessoas incríveis”, declara com os olhos úmidos. 

“É muito interessante que, quando a gente assumiu essa tarefa de implementar a internet não diminuiu em nada as nossas obrigações de analista. Todo mundo era voluntário, mas a gente abraçou essa empreitada com muita motivação. Não existia infraestrutura, nem conhecimento na área, começamos do zero mesmo”, conta. 

A Conferência das Nações Unidas (ONU) sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Eco 92, também foi um marco na história da internet do qual Claudete participou. O Ministério da Ciência e Tecnologia solicitou que tivesse conexão no evento realizado no Rio de Janeiro, para divulgações e troca de informações em espaços de conferência. Essa foi a primeira rede de computadores ligada à internet em eventos desse porte da ONU. 

Claudete foi ao evento de trem. “Foi uma viagem promovida pelo Grupo de Defesa e Promoção Socioambiental (Germen), de Salvador ao Rio de Janeiro, passando por Minas Gerais, para chamar a atenção para o transporte ferroviário como alternativa mais sustentável que o rodoviário. Chegando lá, fomos recebidos por mais de 50 jornalistas internacionais na Central do Brasil, com Gilberto Gil no palanque esperando a gente e cantando Expresso 2222. Foi uma das viagens mais marcantes na minha vida”, comenta.

A Telebahia foi a empresa que primeiro ofereceu internet comercial no Brasil, há 30 anos, segundo a analista. Mesmo depois do surgimento da rede comercial, a rede acadêmica continuou existindo e é mais avançada. “Hoje, a internet acadêmica na Bahia tem seis saídas de 100 GB cada, em redundância total. O comercial, por mais que faça investimentos, não será melhor que a acadêmica, porque eles investem o mínimo possível para dar o retorno financeiro que a empresa quer. A tecnologia mais avançada precisa de muitos recursos, equipamentos, pessoas e de redundância, porque uma rede sempre dá problema, é muito investimento.”

Atualmente, a analista coordena uma rede de 400 km de fibra óptica em Salvador e conta que a todo momento acontece um incidente que danifica a estrutura, como um poste que cai, um roubo de caixa de emenda e incêndios. “Na rede acadêmica, o objetivo é tentar oferecer para a comunidade de pesquisadores do Brasil o melhor de infraestrutura e segurança, com banda larga de verdade, sem falhas e oscilações”. 

Do sertão à universidade

Claudete nasceu em Cansanção, cidade do sertão da Bahia, vizinha a Monte Santo, mas vivia mudando de cidade com a família. Seu pai, que é do Sul do estado, era topógrafo e, durante a construção de um açude no sertão, ele conheceu sua mãe, com quem casou e teve 5 filhos, sendo ela a mais velha e única mulher.

Seus pais eram muito preocupados com a educação. Ela conta que, quando o ensino privado começou a ficar melhor que o público, eles não pouparam esforços para investir na educação dos filhos. “Meu pai pegou o salário dele todo e pagou o melhor colégio de Feira de Santana, que era o Santo Antônio, para eu estudar. Para pagar isso, ele tinha que fazer outros bicos para colocar comida em casa, e isso me deu uma responsabilidade enorme. Eu pensava: ‘ele investiu, agora tenho que dar retorno. Não tinha o direito de errar, né?”, comenta sorrindo. 

Nessa época, Claudete conheceu um filho de um amigo de seu pai que estava fazendo um curso, que era uma novidade: Bacharelado em Processamento de Dados. A graduação da UFBA foi uma das primeiras do Brasil, iniciando ao mesmo tempo que a Unicamp, em 1969. No princípio, a presença feminina era grande, diferente dos dias atuais, em que as salas de aulas do curso são predominantemente compostas por homens. 

Como ela era boa nas matérias exatas e percebeu que tinha mercado de trabalho na área, decidiu fazer a faculdade sem saber muito bem o que era, mas tomou gosto pelo curso. Ainda na universidade ela estagiou em empresas como a multinacional IBM, a Embasa e a Nitrofértil, locais que ela não se adaptou. 

“A IBM era um mundo executivo. A primeira coisa que eles me disseram era que mulher não podia ir de calça, só de saia. E eu era meio hippie, tinha um cabelo enorme, volumoso, e todo dia tinha que fazer um coque e me enquadrar. E os homens, todos jovens de 20 anos, em paletó e gravata. Eu não nasci para isso. Na Embasa, era uma equipe masculina, tinha só uma garota, e eu brinco que até hoje eu não sei se passei no teste por mérito, porque na entrevista o pessoal olhava e dizia: ‘Ah, a menina que vai fazer o teste, então está passada’”, recorda.

Foi na UFBA que ela encontrou o ambiente criativo que gostaria para desenvolver seu trabalho. “Eu comia no restaurante universitário e fui me movimentando. Ajudei uma senhorinha viúva sozinha com a filha a transformar a casa dela num pensionato, comprei móveis usados, arranjei as inquilinas e montei esse lugar para morar. Fui me adaptando nessa cidade grande, e trabalhar na UFBA para mim foi o melhor dos mundos, porque todo mundo fazia tudo com amor e motivação.”

Durante anos ela deu aula na UFBA, como colaboradora, e em faculdades privadas e, já nessa época, mostrava aos estudantes o impacto que a internet teria na vida dos usuários. “Eu era professora na Unifacs, da disciplina Computador e Sociedade, em 1996, e levei os alunos, que eram entre 20 e 30 pessoas, para dar uma aula na minha casa, que tinha internet, para mostrar como aquele negócio, ainda incipiente, podia entrar na nossa vida. Fiz uma aula no computador, mostrando o que era e-mail e como funcionava o chat, que chamava Talk. Nesse momento, uma aluna disse que tinha um irmão que trabalhava na Unicamp e com o Talk. Eu consegui localizar e chamei ele no chat, e aí a gente conversou, com a turma toda surpresa. O irmão dela era Gorgonio Araújo, que, por coincidência, hoje é diretor adjunto da RNP”, conta. 

Ela levava para a sala de aula textos de uma lista de e-mail chamada NetTrend, que discutia o futuro da internet. Essa lista apontava que, um dia, o que estava naquela época num computador de grande porte, ia caber na palma da mão. “Tudo que estava naqueles tais textos do Net Trend aconteceu. Inclusive o computador na palma da mão”, observa. Hoje, Claudete coordena os Projetos Especiais da STI, que envolvem o POP da RNP na Bahia e a Rede Metropolitana de Alta Velocidade de Salvador (REMESSA). 

Claudete já recebeu diversos prêmios e homenagens. Dentre os principais, está o título de Personalidade do Ano, da Associação de Usuários de Informática e Telecomunicações da Bahia, pelos “notáveis serviços prestados à comunidade de TIC”, em 2013; e o Prêmio Ipê, da RNP, junto com Luiz Cláudio Mendonça, na categoria “Comunidade”, em reconhecimento à participação de ambos no processo de evolução da rede acadêmica brasileira e do Sistema RNP no Brasil, em 2024. Em 2025, foi indicada pela STI para receber a  Medalha de Mérito Funcional da UFBA, “em gratidão e reconhecimento às suas excepcionais contribuições” à instituição.

Hobbies e reflexões

Nem só de tecnologia vive a mãe da internet. Casada com artista plástico, Claudete já teve, junto com o marido, uma marca de roupas pintadas à mão, a Maria Preá, que vendia em feiras e lojas. Ela também se dedica à paixão pela restauração de objetos e móveis de madeiras achadas no lixo e à produção de cabides, junto com uma amiga, que desacelerou com a pandemia. “Hoje, de vez em quando eu faço alguma peça, só quando é aniversário de alguém, por exemplo, em vez de ir ao shopping, coisa que eu não gosto, porque me sinto sufocada, eu faço um presente.”

Como hobbies, ela gosta de fazer trilhas e viagens que organiza em grupos de amigos, como caravanas para Mangue Seco, que ela frequenta desde a década de 70, e para o Museu de Arte Popular Juracy Dória, localizado no sertão, próximo à cidade Ruy Barbosa, além de expedições pelo rio Paraguaçu e pela Baía de Todos os Santos, em um saveiro antigo. Uma vez, ela pediu licença prêmio da universidade e fez uma viagem de 3 meses pela América do Sul na companhia de um ex-professor do mestrado. “Tem coisas que eu gosto de fazer e quero levar quem eu gosto junto, para compartilhar aquela alegria. Na última viagem a Mangue Seco foram 51 pessoas. Fiz almoço para todo mundo, gosto de cozinhar. Mas tem um requisito, que é um amigo que toca maravilhosamente bem violão, e eu só organizo as viagens com ele podendo ir”, conta.

A mãe da internet não tem redes sociais. “A gente, naquela época, percebia claramente que estava nascendo uma coisa muito importante para a universidade e para o Brasil, e muito impactante no nosso cotidiano, mas foi muito maior do que se imaginava. Acho que as pessoas se expõem muito nas redes, mas o que mais me preocupa é a questão do uso dessas tecnologias por crianças e adolescentes. Eu não tenho filhos, mas tenho dois sobrinhos adolescentes e vejo a mudança de comportamento a partir do momento em que ganharam o smartphone”, observa.

E reflete sobre o ponto de vista dessas tecnologias na educação. “Eu vejo um risco e impacto imensos, mas é um caminho sem volta. Em um evento, que vai acontecer daqui a pouco, vamos discutir, na Faculdade de Educação da UFBA, sobre a pergunta: se Paulo Freire estivesse hoje entre nós, ele usaria a IA generativa?”.