Espetáculo criado por artista circense se baseia nas ideias do líder quilombola para criticar a epistemologia ocidental
Por Júlia Lins
O pé, erguido acima da cabeça, aponta para o teto. Os dois braços acompanham a perna que sobe em ângulo quase reto, enquanto o corpo é firmemente sustentado de pé pela outra perna plantada no chão. “Isso é a ascensão, não é mesmo? Mas como diz James Baldwin, tudo que sobe tem que descer”, diz a artista, que então fica de cócoras e prossegue. “Esta posição é a que os indígenas e todos os povos que vivem próximos à terra sempre mantiveram para trabalhar e descansar. Aos olhos dos invasores, é uma posição de subordinação, porque estamos próximos da terra, e ela é suja, não?”. E, passando a mão no assoalho de madeira da sala, observa: “aqui, realmente está um pouco sujo”, provoca.
O chão um pouco sujo é de uma sala de aula da tradicional Universidade de Sorbonne, em Paris, símbolo da elite do pensamento europeu. A artista é a brasileira radicada na França, Maïra de Oliveira Aggio, que foi convidada para compartilhar o processo criativo de seu projeto Macacada – um estudo de uma macaca brasileira, na última aula do ano letivo da matéria de sócio-antropologia do mestrado em Filosofia, pela professora, “maître de conférences” e diretora do departamento de sociologia, Laurence Raineau, em abril de 2023.
Em um dos momentos da apresentação na universidade, ela abre um coco e chama o filósofo francês Michel Foucault de macaco. “Eu digo, em Macacada, que Foucault produziu, assim como os macacos-prego no Brasil, muitas ferramentas. No caso do filósofo francês, ele produziu ferramentas capazes de nos ajudar a compreender a epistemologia ocidental hegemônica. Esta que nos foi imposta de forma global, ao custo de epistemicídios, genocídios e da deslegitimação de outras formas de produção de conhecimento, sobretudo porque são saberes transmitidos oralmente. Oralidade da qual me sirvo e que é uma tecnologia ancestral poderosa”, afirma Maïra.
A artista circense promove, em Macacada, uma reconexão com sua ancestralidade, numa obra que se propõe a ser uma provocação estética e filosófica, por meio de diversas linguagens como circo, dramaturgia, literatura e audiovisual. “É um espetáculo que ninguém sabe como classificar: não é teatro, não é dança e não é circo. E eu quero realmente que seja essa provocação de levar o corpo para dentro do lugar de produção de conhecimento, e o conhecimento intelectual para dentro dos espaços onde se trabalha com artes cênicas, com o corpo e o movimento, porque o corpo pensa, e o pensamento se move”, declara.

Ela conta que entendeu como funcionava a produção do espetáculo na Europa e escreveu o projeto estrategicamente para que desse certo. A artista produziu, conseguiu apoio e estreou na Bienal Internacional de Circo, na França, em janeiro de 2025. Maïra, que fica acocorada na maior parte do tempo das apresentações, que duram aproximadamente 50 minutos, se utiliza de elementos brasileiros, como pandeiro e rede, e veste um macaquinho marrom, quando não está com a icônica camisa estampada, de botão, do líder quilombola e poeta piauiense Nego Bispo, que a esposa dele, Dona Edileuza, a presenteou, após ele “ancestralizar”, termo utilizado pela família para se referir ao seu falecimento, aos 63 anos, em 2023.
Nego Bispo pode ser entendido como fio condutor do espetáculo, cujo pensamento contra colonial e o conceito “afropindorâmico” do autor Maïra considera uma “cura”, que a salvou na vida europeia. O termo “afropindorâmico” está no centro do pensamento do líder quilombola e promove uma visão de mundo que valoriza a fusão dos saberes africanos e indígenas, como a conexão com a terra e a descolonização do pensamento eurocêntrico. Nas apresentações, as pessoas entram e a encontram pendurada numa rede de caroá, de onde ela recita um poema de Nego Bispo, que dá início ao espetáculo:
“Quando nós falamos tagarelando/ E escrevemos mal ortografado/ Quando nós cantamos desafinando/ E dançamos descompassado/ Quando nós pintamos borrando/ E desenhamos enviesado/ Não é porque estamos errando/ É porque não fomos colonizados.”
Outros nomes também estão no hall da gênese de Macacada, como o do espanhol Paul B. Preciado, autor do livro Eu sou o Monstro que Vos Fala, publicado no Brasil, pelo selo Zahar. A obra é uma referência ao conto de Franz Kafka – Um Relatório para uma Academia, que conta a história do macaco Pedro.
“É um macaco que fala de sua transição de bicho a ‘homem universal’, após ser capturado pelos europeus na África e viajar num navio para a Europa numa gaiola. No navio, ele já percebe que no mundo dos homens não existe liberdade possível, somente saídas, e ele tem duas: o jardim zoológico e o music hall. Ele escolhe o music-hall e se dedica a aprender o modus operandi europeu: aprende a apertar as mãos, cuspir, beber álcool, falar e ficar de pé. Eu faço essa provocação de que escolhi o circo, assim como o macaco do Kafka escolheu o music hall”, conta Maïra.
A filósofa da ciência e indiana Vandana Shiva; o rapper francês de origem franco-ruandesa, Gaël Faye; a filósofa maranhense Helena Vieira, e o primatólogo japonês Imanishi Kinji, notável por ter estudado macacos nos anos 1940, são outras fontes de pesquisa. Ela também entrevistou alguns primatólogos referências em macaco prego: Tiago Falótico, da Universidade de São Paulo (USP), e Esau Marlon, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Essa espécie é muito estudada, porque é a única das Américas que produz ferramentas para se nutrir”, afirma.
Além disso, a artista pesquisa as lendas brasileiras. “A gente tem muita lenda sobre macaco e onça, e o macaco sempre ganha da onça. A onça é colocada como um bicho mais egoísta, solitário, muito forte e que todo mundo tem medo, mas o macaco é mais esperto e vive provocando a onça: puxa o rabo dela e foge, sempre dá um jeito de se safar pela inteligência.”
Acocorada
Maïra nasceu em Belém do Pará, mas cresceu em Salvador, onde foi morar aos três anos, numa chácara, próxima à antiga Estrada Velha do Aeroporto, onde era possível subir em árvores e colher frutas do pé. “Eu sou essa pessoa que cresceu na Rua Mocambo, de terra batida, que provavelmente um dia foi um quilombo pelo nome, mas que eu desconheço sua história, e que estudou nessas escolas particulares de classe alta, muito discrepantes da minha realidade, que me formaram e me violentaram ao mesmo tempo.”
Ela conta que seu nome foi inspirado no livro homônimo, do antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro. “Eu cito, em Macacada, esse romance porno-mítico do Darcy Ribeiro, que dedicou sua vida a defender as causas indígenas. A interpretação que faço do livro é a diferença entre integração e interação. A integração é se fundir nesse modelo hegemônico universal e esquecer de suas origens. Já interagir é respeitar as fronteiras que nos separam, as membranas que nos envolvem e se transformam ao encontrar o outro, sem se perder. Nego Bispo diz que os rios não deixam de ser rios quando confluem com outros rios, passam a ser mais fortes, mais potentes. É o princípio da confluência”.
Filha de professora universitária da área de Educação, negra, e de um geofísico branco, seu contato com as acrobacias começou no Circo Picolino, uma referência cultural em Salvador. “No início, o circo era apenas uma brincadeira gostosa. No momento de decidir o que fazer para a vida adulta, prestei vestibular para cinema, mas não passei, e voltei a fazer circo. Até que teve uma audição para a Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro, que fiz e passei, e decidi que eu ia enveredar nisso até a idade que o corpo me permitisse e que depois eu poderia seguir outros caminhos.”
Maïra se apaixonou pelo trapézio em balanço e soube que tinha um professor bielorrusso bom nessa área, que dava aula numa escola na Bélgica, onde ela se formou. A artista diz que se encantou pelo circo, por seu aspecto subversivo e marginal, até notar que a rotina não era bem o que ela esperava. “Fui para lá de uma forma muito cega, muito apaixonada. Só que, aos poucos, eu percebi que estava dentro de um circo muito institucionalizado, performático e da virtuose. De repente, eu era aquele corpo que tinha que piruetar e ser exemplar para entrar no mercado de luxo do circo europeu. Tentei entrar nesse mundo, mas isso tudo foi me deixando muito incomodada.”
Ela acabou saindo do mundo do circo virtuoso, mas outra coisa a incomodava. Maïra conta que também começou a não se identificar com o modelo de vida heteronormativa que estava vivendo no casamento de 10 anos. “É como se eu fosse uma esfera que estivesse sendo achatada como uma moeda. Macacada foi uma forma de resistência para eu poder voltar a ser essa esfera múltipla que quero continuar sendo. O projeto começa do voltar para onde eu venho para entender o que eu estou fazendo aqui. E, sem dúvida, isso provocou também a minha separação. Houve um momento em que eu olhei para a casa onde eu vivia e não tinha uma foto minha de antes da Europa, e comecei a me perguntar quem era eu.”
A maternidade foi outro divisor de águas para Maïra. Ela diz que, com a filha pequena, começou a perceber que tinha parado de se acocorar desde sua chegada na Europa, postura comum durante sua vida no Brasil. Ela também percebeu que se sentia um bicho estranho sendo uma mãe que amamentava num país em que as mulheres praticamente não amamentam. “Macacada critica exatamente essa ruptura com a natureza dentro dessa epistemologia. O distanciamento da nossa animalidade, a coisificação do vivo. É o resultado de como eu podia pensar a partir desse corpo que se pendura e se acocora, e não desse corpo evolutivo, que eu não acredito que a evolução seja a gente ficar ereta.”
Seu histórico familiar materno também foi importante para a construção da obra. Sua mãe, embora tenha seguido a carreira acadêmica, aos nove anos trabalhava como empregada doméstica. Sua avó fazia bicos como empregada doméstica, em São Paulo, assim como a tia, que hoje é cozinheira. Elas eram baianas, mas foram para o Sudeste, na década de 60, em busca de trabalho.
“Uma das coisas que eu aprendi com essas mulheres é que os ângulos retos formam cantos que são muito difíceis de limpar, sempre ficam sujeiras ali. E eu faço uma provocação dizendo que os cantos desses ângulos retos desse cartesianismo europeu estão fedendo muito, e que será preciso eles tirarem a vassoura da bunda, parafraseando a expressão em francês, le balai dans le cul, usada para se referir à pessoa travada, e fazer uma faxina nesses 500 anos ou mais de imundície. Essa é a sabedoria da raba. Eu fico de cabeça para baixo e rebolo para provocar e chamar atenção para essa outra tecnologia ancestral corpórea que a gente tem, e que é afrodescendente também”.
Quando perguntada sobre sua identidade racial, ela cita o rapper e romancista franco-ruandês, Gael Faye. “Ele diz que, com a bunda entre duas cadeiras, resolveu se sentar no chão. Eu me sinto assim, com uma bunda entre duas cadeiras, e fui me acocorar no chão. Minha cor vai depender dos espaços que eu circulo. Na escola que eu estudava, eu nunca fui branca, na Europa não sou branca, mas na rua em que eu morava em Salvador eu era branca. Eu tenho a consciência de que eu estou num lugar onde a dicotomia não me reconhece.”

Afropindorâmica
A artista teve contato com a literatura de Nego Bispo a partir da indicação de amigos. Ela começou a escrever o projeto, inspirada na obra dele, numa residência de seis meses, na Cité Internationale des Arts de Paris, com o apoio da Fondation Daniel et Nina Carasso, por meio de uma bolsa.
“Um dia, minha mãe, conversando com uma amiga que conhecia Nego Bispo pessoalmente, me falou que ele estava chateado, porque não paravam de chamar para participar de eventos acadêmicos e lives e de escrever artigos sobre ele, mas dinheiro, que era bom, ele não via. E ele estava certo. Então pensei que nada mais justo que contribuir com uma porcentagem dessa bolsa que estava recebendo. Pedi a ela o pix e o contato dele, e assim comecei a conversar com Nego Bispo. Depois o conheci pessoalmente, em 2022, num bar onde ele tinha costume de ir no bairro da Saúde, em Salvador.”
Maïra esteve à frente da publicação na França do livro A Terra Dá, a Terra Quer, de autoria de Nego Bispo, que, no Brasil, foi publicado pela editora Ubu. Em francês, a obra La terre donne, la terre veut, foi publicada pela Éditions Wildproject, em 2025, com tradução de Oiara Bonilla, posfácio de Maïra e prefácio de Malcolm Ferdinand. O lançamento, realizado no mesmo ano, fez parte da programação do ano do Brasil na França, e passou por Marselha, Toulouse, Paris e Bruxelas, com a participação da filha do autor, a quilombola e ativista Joana Maria.
“A ideia de lançar o livro na França começou quando mostrei a obra ao editor que apoia Macacada, e ele sugeriu publicar em francês. Então, mandei uma mensagem a Nego Bispo perguntando o que ele achava, e ele me escreveu: ‘depende das condições’. Essas foram as últimas palavras dele para mim antes de falecer, e eu fiquei com esse suspense. Um tempo depois, fui para o quilombo, numa visita que já estava prevista antes do falecimento dele, fiquei uma semana na casa do mestre, com sua esposa, Dona Edileuza, e perguntei para a família e para a comunidade, que condições seriam essas, e se publicaria ou não.”
Nessa ocasião, Dona Edileuza perguntou a Maïra se ela gostaria de ganhar uma camisa do Nego Bispo. “Eu fiquei sem jeito e falei: ‘se a senhora acha que eu mereço e quiser me dar, eu super aceito’, e ela me deu. Depois disso, Joana Maria fica dizendo que ela começou a esconder as coisas do pai, só para a mãe não sair dando por aí”, brinca.
Atualmente, Maïra está no Brasil para acompanhar a produção de um novo aparelho circense aéreo inédito, feito a partir da bromélia caroá, por artesãs e artesãos da comunidade quilombola São João do Jatobazinho, localizada próximo à comunidade e quilombo Saco Curtume, onde reside a família de Nego Bispo, no Piauí.
O aparelho faz parte do espetáculo intitulado Desafogadas, previsto para estrear em setembro de 2027, em La Garance Scène Nationale, de Cavaillon, na França. A apresentação é livremente inspirada no livro Undrowned: Black Feminist Lessons from Marine Mammals (Desafogadas: Lições feministas negras a partir de mamíferos marinhos, em tradução livre), de Alexis Pauline Gumbs, ainda não traduzido no Brasil. A obra conta com quatro mulheres afrodescendentes em cena e o músico pernambucano, discípulo de Naná Vasconcelos, Sérgio Bacalhau, que também é compositor da música de Macacada.






