Por Roberta Fagundes

Mangue Seco, último povoado do litoral baiano antes da divisa com Sergipe, é um lugar incontestavelmente lindo, cujo cenário encantou Jorge Amado, autor de Tieta do Agreste, ficção ambientada nesse vilarejo, adaptada para TV e exibida em horário nobre, em 1989. Do alto, se vê tanto o Rio Real, de um lado, quanto o mar, do outro. Mas, tanta beleza também se encontra em um processo avançado de transformação: a água avança sobre a faixa de areia, numa perda simultânea de chão, de moradores e de futuro.
Aos olhos do turista, o Rio Real encanta pelo movimento da sua maré que, quando alta, inunda o manguezal e, ao vazar, deixa à mostra ilhotas repletas de uma finíssima areia alva, e uma intrigante vegetação. O vilarejo fica no ponto exato do encontro do Rio Real com o mar.
Nos últimos anos, Mangue Seco tem sentido, de forma cada vez mais visível, os efeitos das mudanças climáticas e da degradação de ecossistemas costeiros que historicamente o mantiveram estável. Os manguezais associados ao estuário do Rio Real, ecossistemas chave nos quais Mangue Seco está inserido, são mais do que zonas de transição entre água doce e mar: são reservatórios naturais de carbono — comumente chamados de “carbono azul” — com capacidade de sequestrar e armazenar grandes quantidades de dióxido de carbono por longos períodos. Estudos indicam que, por hectare, áreas de mangue podem conter até duas a quatro vezes mais carbono do que florestas tropicais continentais, graças à sua vegetação e especialmente aos sedimentos anaeróbicos (ambientes sem oxigênio que retardam a decomposição da matéria orgânica, funcionando como verdadeiros cofres de carbono) nos quais o carbono fica retido sem oxidar rapidamente, como ocorre em outros biomas terrestres.
Essa habilidade de capturar carbono confere aos manguezais um papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas. Ao capturar o gás carbônico da atmosfera e mantê-lo armazenado no solo encharcado, os manguezais ajudam a frear o aquecimento global. Mas, se, ao invés disso, esses ambientes são degradados, o carbono antes retido é liberado novamente no ar, transformando-o em fonte de gases de efeito estufa.
Além da mitigação, os manguezais – presentes em 338 municípios de 17 estados brasileiros – são reconhecidos como estratégias naturais de adaptação às mudanças climáticas. Eles atuam como barreiras costeiras que reduzem a erosão do solo, amenizam o impacto de tempestades e marés extremas, e ajudam a proteger comunidades humanas e infraestrutura costeira de eventos climáticos intensos.
Segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica, entre 2000 e 2020, foi constatada uma perda de 204 hectares de manguezais no Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e Santa Catarina. Não à toa, a costa de Mangue Seco tem sofrido um processo intenso de erosão, com o avanço das águas sobre sua faixa de areia. Durante a travessia, o barqueiro que nasceu e se criou em Pontal, contou que assistiu o avanço do Rio Real sobre a orla da Vila, atingindo justamente o primeiro atracadouro onde canoas e barcos aportam hoje. O local é vizinho de onde se localizava o cemitério da Vila. O rapaz lembrou que as águas levaram as sepulturas e, desde então, ninguém morre no vilarejo. Essa é uma meia verdade que chama a atenção para os efeitos da mudança climática que atinge o lugar.
Esse processo está associado à combinação entre fatores naturais e estressores climáticos amplificados pelo aquecimento global. A elevação do nível médio do mar, o aumento da frequência de eventos extremos e a maior variabilidade climática têm intensificado, nos últimos anos, os processos erosivos que atingem a Vila.
Nos últimos anos, ações da Secretaria de Turismo do Estado da Bahia têm incentivado roteiros em Mangue Seco, com operadores conduzindo grupos de fora da região para conhecer as dunas, as ilhas do Sogro, da Sogra e de Tieta, e a culinária local. Tradicionalmente, é um destino procurado por turistas em feriados prolongados e no verão, quando a combinação de clima quente, praias e passeios pelas dunas se torna mais atrativa.

A experiência na Vila é uma, se a visita for de um dia ou dois dias; e outra, se o visitante permanecer por mais tempo no lugar. Durante o dia, chama a atenção a quantidade de casas fechadas, muitas delas à venda ou com anúncios de aluguel. Outras estão simplesmente vazias. O motivo é que muitos moradores foram morar no Povoado de Coqueiro e outros tantos saíram em busca de uma oportunidade em cidades maiores. Com uma atividade comercial praticamente limitada à Orla e ao movimento dos visitantes, o povoado não foi capaz de absorver a mão de obra local. Até o pão servido nas pousadas chega de Coqueiro ou de Pontal, por meio dos trabalhadores dos estabelecimentos que chegam de barco todos os dias. A banana da terra servida frita ou cozida nos restaurantes, por exemplo, é trazida por um barqueiro toda segunda-feira e, se ele falha, o produto só chega quarta ou quinta-feira, para abastecer pousadas e restaurantes para o movimento do fim de semana.
Há um posto de saúde municipal que fica aberto durante o dia. Essa é a única estrutura de saúde em Mangue Seco, na qual a Prefeitura Municipal de Jandaíra assegura atendimento médico e odontológico, embora os poucos moradores locais exibam falta de dentes e cáries.
Chama a atenção a ausência de crianças e adolescentes no local. Obviamente, a escola municipal fechou em 2025 por falta de alunos. Os poucos estudantes foram estudar no Povoado de Coqueiro ou na cidade de Indiaroba. O dado coincide com a contagem dos habitantes de Mangue Seco: cerca de 200 a 300 pessoas e, entre esses, quase nenhum nativo.
Esse é o quadro de uma localidade que vive de sua beleza natural e que é, ao mesmo tempo, vítima da condição que possibilitou a sua dinâmica econômica, profundamente marcada por um turismo instantâneo. Sem fixar os habitantes locais, Mangue Seco vai apagando, aos poucos, a sua memória e, com ela, a possibilidade de empreender ações para preservar o seu ecossistema.

Os moradores mais antigos contam que o Rio Real, empurrado pelo mar, avançou sobre Mangue Seco fazendo desaparecer a praia que existiu 20 ou 30 anos atrás, onde, inclusive, passavam buggies. Não fosse pela contenção de pedras amarradas com uma tela de ferro por toda a orla, feita pela Prefeitura de Jandaíra, o vilarejo talvez estivesse ainda mais reduzido.
Por outro lado, do alto do Farol, lugar procurado por turistas atraídos pela paisagem e pelo pôr do sol, a areia branca e finíssima se comporta como uma ampulheta marcando o tempo daquele lugar. Segundo uma moradora antiga, o avanço da areia sobre o vilarejo é causado pelo movimento natural das dunas, o trânsito de buggies e quadriciclos, e o vai e vem dos visitantes que sobem a ladeira ao lado da Igrejinha para conhecer e olhar, de cima, a Ilha de Tieta, onde também se encontra parte do manguezal.
Em Mangue Seco, o avanço da areia e a mudança da linha da costa estão longe de ser apenas uma transformação natural da paisagem. São sinais de como um ambiente costeiro frágil, pressionado pela ação humana e pelas mudanças climáticas, reage ao aquecimento global. Essas alterações atingem não só o território físico do vilarejo, mas também o modo de vida, a permanência dos moradores e a memória social construída em torno do lugar.
A transformação da paisagem do Povoado alerta que a conservação ou restauração desses manguezais representam uma necessidade diante da incontestável mudança climática: manter áreas de mangue em boa condição ecológica amplifica sua capacidade de sequestrar carbono e de prover serviços ecossistêmicos essenciais às comunidades que dependem deles — desde a pesca artesanal até a proteção contra inundações.
Diante de mudanças tão concretas, Mangue Seco murmura mensagens sutis — como se estivesse escondida nos detalhes que só o tempo de permanência no lugar é capaz de revelar. Nesse cenário de transformações, no Pouso das Garças, a última pousada da orla de Mangue Seco, um pé de Fruta Milagrosa vinda da África – um arbusto cultivado com muito cuidado entre uma coleção de rosas do deserto – dá um fruto do tamanho de uma pequena pimenta vermelha. Ela tem o poder de alterar a percepção do paladar por 20 ou 30 minutos, tornando doce as frutas ácidas e cítricas. Uma metáfora…






