Por Júlia Lins

O desejo de ir ao norte da Finlândia me acompanhava desde 2013. Surgiu quando estive em Helsinque e comentaram sobre a possibilidade de conhecer a aurora boreal, o que me soou enigmático. Na época, entre me embrenhar no interior do país para conhecer o fenômeno luminoso, que até então eu só conhecia nas páginas dos livros de escola, e desbravar capitais de países próximos, como Suécia, Noruega e mais outros tantos, decidi pela segunda opção, embora a primeira nunca tenha me abandonado. 

Ao longo dos anos, a leitura de autores que descrevem paisagens geladas, como Karl Ove Knausgård e Olga Tokarczuk, também funcionou como um fermento que fez crescer, até transbordar da forma, o bolo do desejo de realizar essa empreitada, que me sairia mais cara que um rim no mercado clandestino. 

Cheguei com minha filha em Rovaniemi, uma cidade da região da Lapônia, localizada no Círculo Polar Ártico, no início de janeiro. O voo partiu de Paris, não sem antes esperarmos quase 3 horas dentro da aeronave para que as portas descongelassem, devido ao frio polar que avançava sobre a Europa, fazendo a capital francesa experimentar o raro evento da neve. 

Aterrissamos numa paisagem vermelha, em pleno pôr do sol, às duas da tarde, e faziam assustadores -33ºC. Durante seis dias, experimentamos dormir em cama de gelo, em iglu de vidro na beira de um lago congelado e conhecemos na Vila do Papai Noel, um lugar extremamente turístico entre os europeus, uma espécie de Disneylândia do bom velhinho, com passeios de rena, lojas de souvenir e parque de gelo. Confetes a parte, o que me interessava mesmo era congelar ao ar livre e apreciar a paisagem nórdica.

Nos vilarejos e nas estradas, o cenário era praticamente preto e branco com tons de cinza esverdeado, salpicado com algumas construções de detalhes vermelhos ou mostarda. As árvores pareciam cobertas por uma crosta de açúcar, enquanto no chão haviam derramado camadas de chantilly, que na floresta envolviam córregos e mini cachoeiras cristalizadas. À noite, não raro eu tinha a sensação de estar dentro de uma fotografia infravermelha.

Em visita ao Museu de Ciências Arktikum, entendemos que existem povos nativos da região, principalmente os Sami, que são quase tão desprezados como os indígenas no Brasil. Eles têm sua cultura e existência milenares celebradas em museus, mas na realidade são sobreviventes dos impactos da urbanização e do crescimento do turismo ostensivo e, atualmente, pela crise climática.

Quase ninguém nas ruas. No frio extremo, com poucos minutos ao ar livre, os cílios e fios de cabelo que fogem de gorros e jaquetas vão ficando gradativamente brancos e o nariz vai congelando e começa a escorrer (alguém me explique que fenômeno chato é esse). Os dedos das mãos e pés começam a padecer de uma dor semelhante à que senti quando, na infância, os deixei serem espremidos na porta de um fusca. Até que tudo fica mais ou menos dormente e ardido. Simplesmente fantástico.

Na expedição para ver a aurora boreal, assamos, na fogueira do acampamento, marshmallows, salsichas e espigas de milho congeladas, pois quase tudo lá ficava petrificado. Um sorvete derretido no aquecimento do hotel voltava facilmente a sua consistência original ao ser colocado do lado de fora da janela. Sim, nós fizemos isso. 

A aurora boreal é tão bela quanto seu nome. Logo que chegamos na floresta para observá-la, vimos uma mancha cinza esverdeada e discreta no horizonte, que logo foi crescendo, se mexendo e ganhando tintas mais saturadas. Como uma projeção no céu, ela se avolumava suave e majestosa e dançava, tão linda e fugaz como o pouso de uma borboleta. Em meio à paisagem açucarada, ela descia imponente, como uma cascata sibilante de luzes coloridas e sombras de moléculas se moviam dramaticamente. 

Me apaixonei não só pela aurora, mas também pelo minimalismo finlandês. Se a Finlândia fosse uma pessoa, ela seria gentil e séria, muito organizada e com regras bem definidas. Seria um indivíduo cuja educação e o respeito excessivo pela privacidade do outro pode ser confundida com uma frieza.

Essa pessoa seria também muito discreta. Não encontrei em lojas e supermercados publicidades chamativas de promoções, do preço do quilo do filé ou de sorteios de airfryer. No letreiro, há apenas o nome do mercado, que se você não tiver cuidado vai achar que está fechado, e na porta de entrada tem os horários de funcionamento e avisos importantes. Nas ruas, o único som era de carros e da crocância da neve sendo esmagada por botas térmicas.

As pessoas que falavam comigo em locais públicos emitiam apenas as palavras necessárias. “O trem está atrasado e vai demorar uns 20 minutos para chegar na estação”, me disse uma senhora que me viu caminhar cheia de mala em direção à porta do comboio. Eu, como uma baiana tagarela, fui justificar a minha ação, no que fui recebida com expressões incrédulas de pra-que-essa-louca-está-me-contando-tudo-isso, em vez de simplesmente responder com um “obrigada”. Não foi a única vez.

Já somalis e quenianos, que conhecemos trabalhando como motoristas de transporte por aplicativo, davam um tempero à paisagem gelada, com seu calor, suas conversas e a empatia em ajudar uma mulher turistando cheia de bagagem e uma filha de 10 anos. Um deles chegou a parar no mercado no meio da estrada para nos ajudar a comprar um carregador de celular e perguntar se precisávamos de água, comida ou chocolate. Acho que um finlandês não faria isso. Nos contaram sobre suas vidas em seus países, sorriam e falavam do futebol brasileiro. Como não amar essas pessoas?

Eis que voltei da viagem, diretamente para a terra do calor e da poluição visual e sonora, com uma nova obsessão de vida: viver no frio extremo, me atolar no silêncio e trocar o mínimo possível de palavras. Ver o mínimo possível de cores, consumir o mínimo possível de informações e formar uma rede de amigos de imigrantes africanos. Que tal morar no interior do país mais feliz do mundo?