Por Júlia Lins

O jovem músico estava a uns dez ou vinte metros de distância de seu líder espiritual quando o viu pela primeira vez, em 8 de setembro de 2011, usando calça jeans preta, jaqueta preta e cabelão solto. “Na hora, eu pensei: meu Deus, esse guru parece uma estrela de rock. E pude sentir o cheiro de rosas que ele emana”, conta Luis Cardoso, que hoje é um monge devoto de Paramahamsa Vishwananda, fundador da organização espiritual Bhakti Marga.
Seguindo a tradição indiana, Luis levou algumas flores para oferecer ao mestre. “Lembro que, antes de as receber, ele tocou em minha mão. Depois, ele pegou as flores, e, quando me tocou novamente, senti suas mãos ficarem extremamente quentes, aquilo não era normal. E ele olhava profundamente dentro de mim”, descreve.
Segundo o devoto, o aroma de rosas emanado pelo guru pode ser sentido por algumas pessoas e outras não. “Ele quem escolhe quem pode sentir. Nos primeiros dois anos, Guruji tocava minhas mãos e elas ficavam com esse cheiro, mesmo depois de eu tomar dois ou três banhos. Hoje não sinto mais, porque nos acostumamos.”
Nascido em Salvador, na Bahia, Rishi Aaradhakananda, nome que usa atualmente, vive, desde 2015, em Shree Peetha Nilaya, sede principal da Bhakti Marga, na Alemanha. Prestes a completar 39 anos, ele é, desde 2013, o coordenador internacional da música devocional da entidade e integra o seleto grupo de devotos que acompanha o mestre em suas viagens.
Criada em 2005, a Bhakti Marga tem grupos ativos em 40 países, com seguidores espalhados em mais de 60, em todos os continentes, e possui cerca de quinhentos monges, cinco mil devotos e vinte mil seguidores ativos, segundo dados da organização. O país com maior número de seguidores é a Rússia, seguido por Portugal e República Tcheca. No Brasil, ela possui templos, centros ou grupos ativos em cidades do Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Pernambuco.
A entidade segue a linha espiritual indiana vaishnava, uma das principais dentro da tradição sanatana dharma, conhecida como hinduísmo. “Os ingleses chamaram essa tradição de hinduísmo, então o mundo ocidental também passou a chamá-la assim, mas hindu significa o povo que vem depois do Rio Sindhu ou Rio Indo [que nasce no Tibete e atravessa a Índia e o Paquistão]. Tudo o que vem depois desse rio é hindu, mas a civilização indiana é riquíssima e existem centenas de filosofias e digamos, entre parêntesis, religiões, dentro do hinduísmo”, explica o monge.
O líder da organização tem 47 anos e nasceu nas Ilhas Maurício, um país africano de maioria hindu. O site da entidade afirma que a missão pessoal de Paramahamsa Vishwananda é abrir os corações da humanidade. Ele vive viajando pelo mundo “para despertar o amor e a devoção ao Divino por meio de bênçãos pessoais, palestras espirituais, cânticos devocionais, discursos de sabedoria e peregrinações a locais sagrados.” Bastante ativa na internet e em redes sociais, a Bhakti Marga é uma das primeiras da tradição Vaishnava a permitir que mulheres se tornem monjas.
O caminho
A rotina do monge no ashram (casa do mestre espiritual) é cheia e começa cedo. No templo rodeado por floresta, ele acorda por volta das 5h20, faz suas práticas espirituais, como pranayama, meditação e yoga, olha os e-mails, realiza os trabalhos que desenvolve no centro, acompanha a agenda do guru, e tem tempo livre a partir das 21h. Embora ele tenha nascido uma família que sempre buscou a espiritualidade, Luis teve uma infância e adolescência bastante comuns.
Ele é filho de uma fagotista carioca e de um contrabaixista baiano, ambos músicos aposentados pela Orquestra Sinfônica da Bahia e pela Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Seu pai faleceu em 2024. Luis cresceu em meio a uma família de adeptos de diversas filosofias e religiões, como espiritismo, catolicismo e Seicho No Ie, numa Salvador sincrética, culturalmente marcada por religiões de matriz africana.
Durante a adolescência, ele tocava guitarra, era integrante de bandas de heavy metal e se apresentava em casas noturnas undergrounds. “Considero que isso já era uma forma que eu tinha, nessa época, de tentar sair do mundo normal e ir experimentar coisas diferentes”, avalia. Nesse período, ele teve contato com a literatura sagrada indiana, como o Bhagavad Gita, e aos 16, começou a praticar Kriya Yoga. Um ano depois, se tornou seguidor de Paramahansa Yogananda, abandonou a vida noturna e virou vegetariano.
Ele herdou o talento para a música, porém se identificava mais com a música popular do que com a clássica praticada por seus pais, o que o levou a estudar Bacharelado em Composição e Regência, na UFBA. Após três anos e meio de faculdade, por recomendação de um de seus professores, o guitarrista Mou Brasil, ele se mudou para a Alemanha, com 20 anos, para estudar Guitarra Jazz, na Universidade de Música Saarland.
Foi na Europa que Luis teve seu primeiro contato com Paramahamsa Vishwananda. “Eu vim e vivenciei os ensinamentos e milagres de Guruji com as pessoas ao seu redor. Isso me permitiu ver os sinais de que, na verdade, não há diferença entre ele e o mestre espiritual que seguia desde a adolescência, de quem eu era devoto. Hoje, eu tenho a confirmação de que ele é o melhor guru da Terra, e que ele é meu mestre espiritual há muitas vidas.”
Aos 28 anos, o monge foi iniciado como Brahmachari, um devoto que dedica a vida à busca espiritual, adotando o celibato, o vegetarianismo, a autodisciplina e obediência ao guru. Atualmente, como Rishi, seu principal papel é ensinar e difundir a espiritualidade. Cada iniciação a uma das ordens — Brahmachari, Rishi e Swami — é realizada por meio de um ritual e um novo nome espiritual em sânscrito é atribuído ao devoto pelo guru, representando um renascimento. Ao ser mencionado, o nome é como um mantra, que ajuda a reafirmar e desenvolver a qualidade que está no significado da palavra. Aaradhakananda significa a bem-aventurança na prática devocional.
Hoje, a mãe e a irmã de Aaradhakananda vivem como Brahmacharini e seus sobrinhos são seguidores do guru. O pai também era devoto. “Nossa confiança está em Guruji. Quando nos tornamos monges, tudo o que ele diz deve ser a regra que está a nos guiar”, afirma.
Na Bhakti Marga, os kirtans (músicas devocionais) são uma expressão tão importante quanto a meditação e o pranayama, e fazem parte da prática espiritual diária dos seguidores. Cada país tem um coordenador de kirtans, e, desde 2013, Aaradhakananda coordena esses coordenadores, além de supervisionar as músicas que vão para as plataformas de áudio e vídeo da entidade.
Para quem observa de fora, as cerimônias de kirtans soam como grandes festas, o que condiz com as origens de um bom baiano: um conjunto de músicos tocando e o público cantando, batendo palmas e dançando, num ambiente com luzes coloridas e decorado com as imagens das divindades. “Não é só nos divertirmos juntos. Não é tão simples assim. O kirtan é uma das expressões mais elevadas de todo tipo de relacionamento que podemos ter com o Senhor. A prática de cantar o nome de Deus também purifica todo o lugar. O kirtan é uma prática que pode te conectar com o próprio Deus. Guruji disse isso infinitas vezes. A música devocional é muito importante, porque é uma das melhores formas de acalmar a mente”, afirma.
Para Aaradhakananda, ser monge soteropolitano é ter uma espiritualidade intrínseca e ao mesmo ter uma tendência a gostar de celebrações. “Quando estou na Bahia as pessoas olham com curiosidade, podem perguntar algo ou não, mas sempre há respeito e um reconhecimento (muita gente gosta de ler sobre a cultura da Índia ou visita centros na cidade de Salvador). Até hoje, no Brasil, nunca passei nenhum tratamento rude ou desrespeitoso, mas já tive umas discussões interessantes com cristãos que não conhecem o Sanatana Dharma/Vaishnavismo e surgem com argumentos infundados e suposições errôneas”, afirma.
Ele diz que mantém contato com a maioria dos amigos e parentes que eram mais próximos, mas de forma superficial. “Parece que, ou eles tem medo de perguntar e falar algo errado, ou acham que sou completamente maluco e é melhor ignorar o fato de eu ter me ter tornado um monge celibatário, vegetariano, que segue um guru”, comenta.

A prova pessoal da existência de Deus
Meses antes de conhecer o guru, Luis realizou um processo para parar de comer, iniciado em 9 de março de 2011. Ao ser questionado sobre o tema, ele perguntou onde conseguimos essa informação, mas logo lembrou de uma entrevista que deu em 2022, e está disponível no YouTube. “Não gosto de falar sobre isso, as pessoas não acreditam e ficam me enchendo”, reclama.
“Tem pessoas que tentaram fazer esse processo e morreram. Eu conheço uma pessoa que morreu. Teoricamente, o corpo, depois de quatro dias entra em colapso se você não bebe água, mas a maioria não tem problemas. Esse é um processo esotérico. Não é algo comprovado cientificamente, mas o que dizem é que algo muda no seu corpo e você para de sentir a necessidade de comer”, conta.
A ideia de parar de comer surgiu quando ele leu o livro Autobiografia de um Iogue, que cita duas pessoas que Yogananda visitou que não precisavam ingerir alimentos. Uma é Giri Bala, uma santa indiana, e a outra Teresa Neumann, uma alemã que só se alimentava de hóstia. Anos depois, ele assistiu a uma entrevista, na TV, de um casal que vivia de “prana”, que seria uma “energia vital” ou “luz”. Eles contavam como era a experiência e mencionaram um livro, o qual o monge comprou para ler. A venda desse livro hoje é proibida.
Toda vez que Luis manifestava sua vontade de fazer o processo para parar de comer e falava com seus pais sobre o assunto, eles ficavam bravos, então ele passou alguns anos apenas estudando a temática, e participava de uma comunidade online, em que havia algumas pessoas que diziam viver dessa forma.
Certo dia, quando já morava na Alemanha, ele orou pedindo que, se era para ele fazer esse processo, que Deus desse um sinal, e esse sinal seria conhecer pessoalmente alguém que vivia assim. Cerca de dois meses depois, um brasileiro da comunidade online, Oberom, conhecido na cena espiritual no Brasil, que afirmava não precisar comer, estava na Europa ministrando palestras sobre o tema, e perguntou se teria alguém que pudesse hospedá-lo, pois estava em Munique indo para Paris, e tinha uma semana livre. “Eu morava em Saarbrücken, cidade da Alemanha que fica exatamente entre esses dois lugares, e ofereci minha casa para ele ficar. Logo depois eu estava dividindo o quarto com ele, que não comia nada, apenas bebia. Nós fazíamos caminhada e ioga, e ele era super forte. Seus irmãos, pai e mãe vivem assim. Nos tornamos amigos”, afirma.
O monge entendeu que sua oração tinha sido atendida e agora ele tinha que fazer o processo, que realizou em um retiro no Brasil. “Eu queria provar a existência de Deus para mim mesmo. Eu sabia que, se eu não comesse e continuasse vivo, era Deus dentro de mim que me mantinha vivo. Essa era a minha principal motivação. Deus existe.”
Mas ele diz que ficar sem comer não é uma obrigação, que não é radical e que não incentiva ninguém a fazer. “Se eu quiser comer, eu como. Às vezes tomo sorvete ou como um pedaço de chocolate que alguém oferece, e gosto de comer com os amigos para me divertir.” Ele também afirma que todos os dias, desde que ele se mudou para o templo, come pelo menos uma colherada de prasad — uma comida distribuída aos devotos como bênção —, mas nunca faz uma refeição completa e pode passar muitos dias sem comer nada, bebendo apenas água, café e chá, porque não sente fome.
Ele conta que o primeiro ano após o processo, 2012, foi o mais disciplinado, vivendo esse período praticamente de líquidos. A mãe, preocupada, o obrigou a fazer exames de sangue, e, segundo o monge, estava tudo bem.
“Guruji brinca, às vezes, quando me vê comendo prasad, ele diz: ‘olha só que mentiroso, ele está comendo’. Uma vez eu perguntei a ele: ‘Você faz essa piada, mas os vaishnavas acreditam que o prasad contém o próprio Deus. Se eu recusar o prasad, serei ofensivo e estúpido, não é?’ E Guruji disse: ‘Sim, você não pode recusá-lo.’”
O guru apoia a iniciativa de Aaradhakananda, mas diz que ele deve pelo menos beber água.
A morte pode dar sentido à vida
Antes de se tornar monge, Luis foi casado no civil, na Alemanha, e espiritualmente no templo de Shiva, na Índia. Meses depois da cerimônia, sua então esposa, que também era seguidora do guru, engravidou. “Com o avanço da gravidez, Guruji perguntava repetidamente quando ia ser o parto no hospital, e sempre respondíamos que seria parto natural, em casa e com uma parteira, pensando que ele se esquecia. Se tivesse mais experiência com ele, como tenho agora, eu entenderia. Se ele pergunta a mesma coisa mais de uma vez, na verdade está dizendo algo, não está apenas perguntando. É assim que Guruji nos dá mensagens”, diz.
Após um intenso trabalho de parto de 24h, sua esposa teve que ir para o hospital, onde deu à luz a uma menina, cujo nome foi enviado pelo guru, que estava viajando, por SMS: Sharade. Eles foram para casa e levavam uma vida normal até o sexto dia, quando o bebê começou a ter muitas dificuldades de respirar repentinamente.
Neste dia, eles viveram momentos difíceis em hospitais, para conseguir salvar a filha e investigar o problema de saúde. O diagnóstico foi que a bebê tinha nascido com a síndrome da hipoplasia do ventrículo esquerdo, condição em que um lado do coração é muito pequeno e o outro faz todo o trabalho para bombear o sangue. O tratamento para esta condição é a realização de três cirurgias.
Após a primeira, Sharade viveu como um bebê saudável até os seis meses. Porém, certo dia, em meio a uma apresentação de música, Aaradhakananda recebeu uma mensagem da sua esposa, pedindo que ele voltasse rápido para casa, porque algo estava acontecendo. Quando ele chegou, ambulâncias já se encontravam na porta de casa e foram ao hospital para tentar salvá-la, mas não havia mais o que ser feito. Sharade faleceu.
“Na hora, ligamos para Guruji, e dissemos gritando: ‘você é o único que pode fazer alguma coisa agora’. E ele, nesse momento mais difícil das nossas vidas, foi realmente muito rígido conosco, e disse: ‘o karma dela acabou. Conversei com ela, e ela quer seguir em frente”, conta o monge. Luis e a esposa se despediram da pequena Sharade.
Ao voltar para casa, que ficava a 15 minutos da sede da Bhakti Marga, o casal recebeu a visita inesperada de quase todos os moradores do templo, e fizeram um kirtan de duas horas. “É assim que você vê como nossos devotos são incríveis e apaixonados. Fechamos as janelas e cortinas, tocamos, cantamos e choramos, todos juntos. A sensação de ter uma família espiritual tão incrível foi uma das coisas mais intensas e maravilhosas que já senti na vida. Quando cantamos o nome de Deus, de Krishna e de Guruji, senti uma felicidade de fazer parte de uma família espiritual tão profunda, de estar tão perto de Deus”.
Aaradhakananda conta que, nesse tempo, dois milagres foram realizados por Paramahamsa Vishwananda — o primeiro foi sua filha ter vivido os seis primeiros dias de vida sem apresentar nenhum problema de saúde. O segundo foi Guruji ter dado a vida à ela novamente, quando os médicos perderam as esperanças na âmbulância à caminho do hospital antes da primeira cirurgia.
“Guruji deu um pedaço do coração dele à minha filha. Ele a trouxe de volta para que a gente pudesse ter seis meses de uma experiência de amor junto com ela. Uma prova disso é que, quando descobriram a condição de saúde dela, o laudo apontava hipoplasia do ventrículo esquerdo grave. E quando ela faleceu, o médico descreveu como hipoplasia do ventrículo esquerdo moderada. O crescimento desse músculo não é possível de acontecer”, conta.
A partir daquele momento, o guru permitiu que Aaradhakananda sempre estivesse com ele, inclusive nas viagens. Sua ex-esposa decidiu se tornar Brahmacharini e hoje mora na Índia. “Foi assim que decidi colocar tudo nas mãos de Guruji. Minha vida desde então pertence somente a ele.”
Antes disso, o nascimento de uma de suas irmãs com uma má formação, quando ele tinha 11 anos, também foi transformador para Luis. Na época, a condição dela não foi identificada nos exames pré-natais e, ao nascer, foi necessário mudar, subitamente, a rotina de toda família para a instalação de um home care no apartamento em que moravam e para os intensos cuidados com a irmã, que se comunicava apenas pelo choro, sorriso ou movendo o braço direito. Ela faleceu com 18 anos. Segundo o guru, toda a família foi purificada pelo serviço prestado, pois eles puderam aprender o significado de altruísmo.
“Todos que fazem parte da nossa vida são dádivas de Deus, que chegam e partem quando Deus quer, e não temos controle sobre isso, devemos apenas ser gratos por cada relacionamento que temos. É claro que sempre haverá apego, mas não precisamos mentir para nós mesmos e acreditar que as pessoas ao nosso redor ou nós mesmos não vamos morrer. Por que nos enganar? Se pensarmos na morte, damos sentido às coisas, não desperdiçamos as oportunidades mais importantes e colocamos Deus no lugar certo nesta equação matemática chamada vida.”






