Por Roberta Fagundes
No palco do humor gráfico brasileiro, a obra de Laerte Coutinho é composta por personagens e situações que desafiam a lógica e o senso comum, abordando os mais diversos temas com a profundidade e a irreverência próprias de um observador social treinado. Exemplo disso é a história em quadrinhos “A Insustentável Leveza do Ser”, publicada nas revistas Circo e Chiclete com Banana, na década de 80, e reeditada pela Conrad Editora em 2024. O título é o mesmo, mas não se trata de nenhuma adaptação do romance de Milan Kundera.
A brasileira HQ de Laerte apresenta uma sofisticada ironia que transforma a “leveza” em nonsense e crítica social para abordar as contradições da nossa sociedade. Diferente de Kundera, que explora a oposição entre peso e leveza como categorias existenciais para refletir sobre a liberdade e o destino humano sob um regime totalitário, Laerte subverte esse raciocínio para mostrar e fazer pensar uma “leveza” que, ao combinar o cômico com a crítica, desestabiliza certezas e expõe a hipocrisia social através do riso.
O personagem central da trama é Renato, que se depara com a revelação de uma realidade crua que desestrutura suas crenças e percepções mais íntimas: seus pais, na verdade, haviam trocado de gêneros. Isso mesmo, o pai era a mãe e vice-versa. A vida que ele conhecia não passava de uma teia de aparências. Essa inversão de papéis vai aparecendo à medida que o diálogo se desenvolve entre os personagens que vão, aos poucos, se despindo de suas peles e desfazendo aquela “realidade” tão familiar para Renato. O rompimento abrupto com a lógica binária de gênero dispara a desconstrução de outras convenções sociais. O próprio Renato é confrontado por um espelho que o força a se despir de sua própria pele. O leitor se vê sem outra alternativa que não seja a de questionar o que é real e o que é construído em nossa sociedade, como em um jogo de espelhos que reflete as ansiedades e transformações do comportamento humano.
O enredo que Laerte já comunicava nos anos 80 é surpreendentemente atual, sobretudo quando se olha para os dados sobre saúde mental no planeta. Trazendo o debate para o nosso tempo, a aparente conexão propiciada pelas redes sociais parece ser, na prática, uma forma sofisticada de isolamento e sofrimento em nível global.



Quem nunca se deteve, ao menos uma vez, em perfis de gente que posta fotos e vídeos de uma vida absolutamente interessante e exuberante, farta e feliz, que atire a primeira pedra. Quem, diante disso, nunca comparou a própria realidade com a de pessoas que, nos posts do Facebook e do Instagram, por exemplo, são, aparentemente, muito realizadas nos mais diversos aspectos da vida? Para além da satisfação da curiosidade, essa comparação tem repercutido na saúde mental das pessoas e o problema é sério.
Os relatórios divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre o tema, estimam que, mundialmente, mais de 1 bilhão de pessoas convivam com algum transtorno mental, com maior prevalência da ansiedade e da depressão. Entre os aspectos que mais impactam na saúde mental de todos nós, estão os problemas financeiros, de saúde, familiares e relacionais. No Brasil, a ansiedade atinge 9,3% da população, enquanto estudos mostram prevalência da depressão ao longo da vida em até 20% nas mulheres e 12% nos homens, segundo o Ministério da Saúde.
Embora não haja uma comprovação cabal de que esses índices de depressão e ansiedade estejam diretamente relacionados com o uso de redes sociais, não se despreza o fato de que os brasileiros passam em média 3 horas e 32 minutos por dia nessas plataformas, de acordo com o Relatório Digital 2025: 5 global overview report. Isso coloca o Brasil nos primeiros lugares de concectividade. Coincidência ou não, chama a atenção o fato de que, considerando apenas o Instagram, o Brasil possua 140,7 milhões de usuários, o 3º maior público de publicidade da plataforma.
Este panorama convida a uma reflexão que ressoa diretamente com a obra de Laerte. Na HQ “A Insustentável Leveza do Ser”, a realidade aparente se desfaz camada por camada até revelar algo desconcertante por baixo das convenções. A crítica da cartunista atingia, já nos anos 80, aquilo que hoje é amplamente vivenciado e percebido pela maior parte de nós: a construção de identidades e relações sustentadas por aparências, papéis sociais impostos por uma sociedade cada vez mais inclinada a consumir pedaços de vidas “editadas”, e uma profunda ansiedade em relação ao olhar e à aprovação alheia. As redes sociais potencializaram esse fenômeno a uma escala sem precedentes.
Se o riso com a absurda desconstrução da realidade de Renato é inevitável, ele também é desconcertante. Se ele é provocado por situações que beiram o ilógico, também é um constrangedor convite à reflexão. O humor inteligente e melancólico da cartunista está repleto de identidade, linguagem, papéis de gênero e as profundas contradições do Brasil. Mesmo depois de mais de quarenta anos após sua criação, a Insustentável Leveza do Ser brasileira mantém uma atualidade impressionante que ressoa nos debates contemporâneos sobre fluidez de gênero, desconstrução de identidades e a busca por autenticidade em um mundo de aparências.
Sem dúvida, é um manifesto artístico que celebra a liberdade criativa e a potência do humor como forma de intervenção a nos lembrar que, por vezes, é na mais insustentável da leveza que encontramos as verdades mais urgentes e necessárias sobre nós mesmos e o mundo que habitamos. O riso… ah… ele é o crítico e o subversivo que questiona e liberta.






